Teixeira Mendes

Sair, aprender e inovar na Madeira


Teixeira Mendes sai da Madeira antes dos 17. Destino: África do Sul. Entra no imobiliário, automóveis e mobiliário. Estabelece-se na imobiliária. Regressa à Madeira. Recomeça e aplica a experiência adquirida.

por: Paulo Camacho
A guerra colonial é uma realidade em África nos anos 60. Todos querem evitar o ultramar. José Manuel Teixeira Mendes é um dos jovens de então que também não quer saber de palcos de conflitos.
Colocam-se duas hipóteses: continuar a estudar e ter como quase certa a ida para a tropa ou sair do país. Como tantos outros contemporâneos fazem.
É o pai, um comerciante madeirense, que decide evitar que o filho corra o risco de cumprir o difícil serviço militar.
Teixeira Mendes tem 17 anos e um irmão mais velho a viver na África do Sul, que para ali vai pelas mesmas razões.
Em 1967, estudante na Escola de Artes e Ofícios (hoje Escola Salesiana), é obrigado a largar tudo antes de completar o limite dos 17 anos.
Joanesburgo

Para trás fica uma mão-cheia de amigos e actividades. E, pela frente, um mar de incertezas no mundo desconhecido, com uma língua diferente e outras mentalidades.
Teixeira Mendes segue para Joanesburgo.
Ali, a primeira missão é procurar trabalho. Antes mesmo de pensar em continuar a estudar.
Tem a sorte de trabalhar para um grupo, onde é o único português. Actua na mediação imobiliária, mas existe, simultaneamente, um departamento que desenvolve loteamentos.
O grupo actua também na venda de carros, concretamente da Peugeot; na área do mobiliário e ainda no domínio do financiamento de produtos que comercializa.
Teixeira Mendes tanto é chamado para vender uma propriedade como um carro. Sempre que surge um português interessado lá está a atendê-lo.
Atento ao mercado, depressa consegue estabelecer-se por conta própria. Diz mesmo que qualquer pessoa que chega à África do Sul de então, com algum empenho, consegue estabelecer-se e começar a trabalhar no seu próprio negócio.
Já bem integrado na comunidade e a dominar a língua, cria a sua empresa de imobiliária. É o início no ramo que perdura até hoje.

Ironia

Mas, ironia do destino, aos 22 anos, acaba por ter de cumprir o serviço militar na África do Sul, na então Rodésia, actual Zimbabué. É uma obrigação imposta a todo o emigrante, a residir no país há mais de um ano e com menos de 30 anos.
Tem de cumprir nove meses, incluindo a recruta. Mas consegue passar sem problemas.
Antes disso, quando chega à África do Sul, consegue jogar futebol em clubes locais, embora não o faça a nível profissional e sim como amador.
No fundo é o retomar de uma actividade que tem na Madeira onde chega a ser campeão da Madeira no Club Sports Madeira em 1964, na equipa sensação de então. Tem como colega José Manuel Lomelino, entre outros que progridem na carreira.
Regressa à Madeira a 25 de Abril de 1977, precisamente três anos depois da “revolução dos cravos” em 1974.
Encontra uma ilha muito diferente. Aberta e com uma nova mentalidade.
Chega à Madeira com 28 anos.
Na bagagem traz pouco dinheiro mas uma riqueza: a experiência que adquire e acaba por pôr em prática para recomeçar a actividade na terra natal. É sempre o objectivo que tem em mente desde que sai da ilha.

A escolha

Não obstante, quando chega à Madeira, defronta-se com duas saídas: ou estabelece-se por contra própria ou procura emprego. Esta última hipótese não se afigura fácil.
No entanto, estabelecer-se carece de algum capital. O dinheiro que traz consigo é 300 mil escudos (1.500€). Além de um carro e algumas mobílias.
Antes de tudo, enfrenta o primeiro contratempo: a procura de casa para viver juntamente com a família.
Nessa altura, ninguém aluga casa. A única solução passa pela compra. Mas não está em condições para o fazer. O mais barato que existe na altura é muito para a sua carteira. Um T1, por exemplo, no edifício Caracas custa 700/750 mil escudos (3.500/3.740€). Uma casa geminada no Garagau custa 500 mil escudos (2.500€).

O negócio na ilha

Tem de optar.
Compra casa e procura emprego e decide a vida, ou não adquire habitação própria e tenta solucionar a questão por uns tempos em casa de família e entra num negócio próprio.
Como vem de uma família sempre ligada ao comércio e traz essa força no sangue, opta por investir.
Uma semana depois de chegar à Madeira, compra o primeiro estabelecimento na ilha: a pastelaria Penha de França, no Imaculado Coração de Maria.
O trespasse custa 550 mil escudos (2.250€). Precisa de um empréstimo bancário, que se torna difícil de obter.
O banco não o conhece. Pede fiador. A irmã surge em seu auxílio. Tem de hipotecar a casa.
Para habitar, socorre-se da casa de familiares.

Móveis Rómulo

Sete meses mais tarde, abre uma casa de móveis juntamente com um amigo do continente: a Rómulo. Fica na Rua dos Aranhas onde posteriormente se instala a agência Barbosa e onde está actualmente a Viva Travel.
Aluga o espaço e coloca em prática uma das áreas que trabalha na África do Sul.
Mantém o negócio da pastelaria, onde funciona também um serviço de bar.
Mas os móveis começam a ocupar cada vez mais o seu tempo porque começa a introduzir métodos completamente diferentes do que se faz na altura na ilha.
Além disso, existem poucas casas de móveis. As que operam, diz que trabalham de forma antiquada. E com preços muito elevados em relação ao continente.

Um sucesso

Teixeira Mendes começa a fazer anúncios de página inteira nos jornais, com preços idênticos aos do continente, acrescidos do valor do transporte. As margens de lucro são escassas.
É um sucesso.
Chega a ter 15 contentores de móveis no porto do Funchal.
Os produtos chegam. E depressa saem. Não chega a ter “stocks”.
Paralelamente deita o olho ao que se passa no domínio da imobiliária. Conhece bem o ramo. Por isso não se conforma com o que vê na ilha. Considera que aquilo que há no mercado é muito fraco.

A Unicom

Depressa conclui que tem de entrar nesse mercado. Quanto antes.
Assim, a dado momento, decide abrir, em 1979, a Unicom na Rua do Carmo. Juntamente com um grande amigo de África: Aníbal Talhadas. Vive no continente. Convence-o a vir para a Madeira.
Mais tarde muda para a Rua da Queimada de Baixo e Rua de João Tavira.
Vende o primeiro negócio.
Abre mais uma loja de mobílias Rómulo na Rua do Carmo, onde hoje está novamente uma casa da mesma área.
O trespasse custa 1.200 contos (6.000€). Mas vale a pena. É só vender.

Adeus aos móveis

Mais tarde vende a sua parte nos móveis. Deixa este negócio.
Agora há que se dedicar aos locais para onde vão as mobílias.
Fica na Unicom a tempo inteiro. É um trabalho num mercado com muito por explorar.
Está junto com Aníbal Talhadas cerca de um ano, o qual acaba por montar a sua própria empresa.
Teixeira Mendes fica só na Unicom a concretizar o sonho de introduzir a mediação imobiliária a sério na Madeira.

Cascais

Há cerca de 10 anos abre a Unicom Cascais, que ainda mantém.
Um negócio que surge em parte pelo interesse de clientes seus que querem ter alguém de confiança para poderem investir, com confiança, em Cascais e em toda a Costa do Estoril.
Inclusivamente, tem jornais da Madeira no escritório, o que motiva alguns madeirenses a passarem os olhos na imprensa da ilha. Além disso, muitas vezes, é o local de encontro. É quase uma “embaixada” da Madeira.
Presentemente, o empresário está ligado à componente imobiliária e igualmente à promoção imobiliária.

Viajar e aprender

Vai muitas vezes a feiras do sector. Além disso gosta de viajar e, normalmente, escolhe locais onde possa “beber” novidades dentro da sua área. Tira muitas fotografias de edifícios ou pormenores que possam vir a interessar para futuros projectos.
Aliás, neste momento, está com um projecto para o Funchal, nos Ihéus, que é diferente. Resulta precisamente de uma ideia que viu em Nice.

Paixão pelo golfe

Lê muito. Mais quando viaja.
Compra muitos livros e revistas ligados à construção, decoração e imobiliária e afins.
Lê também os jornais madeirenses. Dispensa os do continente. A excepção são os de desporto. Neste âmbito devora muita informação sobre o golfe, o seu grande “hobby”, que pratica duas a três vezes por semana. Esta particularidade, que abraça já há seis anos, faz parte do pacote de viagens. Escolhe também quase sempre lugares onde possa levar o equipamento para jogar.
A nível de outros “hobbies” tem, durante algum tempo, o gosto pelo mar. Mas a paixão pelo golfe é maior e, o barco que tem, quase não o utiliza. Por isso vende-o.
O futebol que joga desde cedo e o squash ficaram também relegados para segundo plano.

A Conselheiro

No domínio do tempo de trabalho Teixeira Mendes refere que vendeu parte da Unicom Funchal para poder dedicar-se mais à sua empresa de promoção imobiliária: Conselheiro (que pode comprar, vender e construir, o que não acontece com a Unicom que tem de se cingir à mediação imobiliária e administração de bens imóveis), ao golfe, e ter mais tempo para si.
Contudo, o que aparentemente lhe vai proporcionar mais tempo acaba por mantê-lo ocupado na empresa. Quase não é capaz de sair do escritório antes das 19 horas.
Em suma, faz quase o mesmo horário que antes.
No relacionamento com as novas tecnologias reconhece que não é o desejável. Apesar de ter a empresa informatizada, não tem qualquer terminal no escritório. Contudo, diz-se empenhado para que, em breve, mergulhe no domínio da informática. 


2002-11-01
Share This

Sem comentários:

Enviar um comentário

Contactos

biografiasmadeira@gmail.com paulosilvacamcho@gmail.com