Martins Soares

O "pai" da Expomadeira

O primeiro emprego surge na Fábrica Militar de Braço de Prata, na capital, onde são executadas peças como as famosas armas G3.


Nasce em Coimbra e vive em lugares diferentes até que se decide mudar definitivamente para a Madeira a poucas semanas do 25 de Abril de 1974.
Chama-se Martins Soares. Engenheiro de formação, passa pelo serviço militar, que o leva à Guiné, até encontrar na ilha portuguesa o local ideal para entrar numa actividade empresarial diferente: o mundo da reparação naval, ao qual ainda se mantém ligado, com outras funções. Para a História fica uma actividade rica onde sobressaem factos como seja o de ter sido o “pai” da Expomadeira.

Nasce em Coimbra. Cedo muda de ares, com sete/oito anos, altura em que o pai é nomeado administrador de uma empresa exploradora de minas. Lá fica pouco tempo. A infelicidade bate à porta com a morte do pai. Tem apenas nove anos.
Vai para o Porto e vive com os avós.
Os anos passam. Parte para Lisboa. Concorre à Academia Militar, onde tira o curso de Engenharia Mecânica, com especialidade de armamento. A restante é feita no Técnico.

O primeiro emprego

A opção pela instituição militar acontece em parte devido a uma certa tradição familiar. Um tio chega a ser governador militar na Madeira na década de 60.
Acabados os estudos, começa a trabalhar. O primeiro emprego surge na Fábrica Militar de Braço de Prata, na capital, onde são executadas peças como as famosas armas G3.
É uma grande escola para o jovem Martins Soares. Escola tanto ao nível de engenharia como de gestão.
Mas os tempos calmos de Lisboa são interrompidos. Em 1969 é mobilizado para a Guiné.
Embora o seu campo de acção não seja o terreno de guerra, mais sujeito aos tiros do adversário, acaba por ter de vir para o continente por enfrentar problemas de saúde. Na realidade, seriam responsáveis, em parte, por decidir abandonar a vida militar.
Durante o período em que está na Guiné, quase dois anos, tem à sua responsabilidade tudo o que tem a ver com viaturas, material de guerra, munições, armamento, entre muitos outros equipamentos.
Martins Soares recorda um facto curioso desse tempo, pelo seu serviço ser o maior empregador civil na Guiné. Sob as suas ordens tem cerca de 300 militares brancos e 600 civis negros.
Mais tarde é convidado a montar os novos depósitos de material de guerra em Bra, fora de Bissau, a capital do território.

O escritório de Mané

Como curiosidade, quando houve o último golpe de Estado no país, que destituiu Nino Vieira, a entrevista que Asumane Mané dá à televisão é feita no seu antigo gabinete, dentro do quartel que monta.
É então que tem o primeiro problema de saúde. Fica internado cerca de um mês e meio na Guiné e tem de vir para Lisboa, onde continua a recuperação.
Decide ir novamente para a Guiné mas sabe que o clima não vai permitir ficar muito tempo. O que aconteceu. Cerca de três/quatro meses depois, com a muita humidade do território, as temperaturas altas e más estradas, está de regresso à “metrópole”. Abandona a carreira militar.
No entanto, a vida das armas tem prolongamento na carreira civil. Isto porque fica ligado a material de guerra e explosivos em fábricas civis.
Fica à frente de um departamento de qualidade na fábrica da Trafaria. Nessa altura coordena os fabricos comuns na Trafaria e na Precix, uma fábrica de equipamentos de precisão.
Dá-se um episódio curioso. O então vice-chefe da Defesa, António Spínola, durante uma visita às instalações, mostra uma grande munição capturada ao inimigo nos campos de batalha da Guiné. Dá indicações para que a copiem e a tenham em fabricação dentro de seis meses. Nem fazem ideia do que contém nem dos seus mecanismos. Contudo, meio ano depois, estavam no Campo de Tiro de Alcochete a apresentar resultados superiores ao objecto original.
Com o falecimento do filho mais velho, decide sair de Lisboa.

A Madeira

A mulher, natural da Madeira, contribui para que, assim que surge a oportunidade de vir para a ilha, pegue nas malas e não pense duas vezes.
A decisão de mudar de ares é tomada em Outubro de 1973 e em Novembro está no Funchal a assinar o contrato.
Vem definitivamente para a ilha em Fevereiro de 1974.
O seu primeiro trabalho na ainda Madeira não autónoma é na Madeira Engeneering. Ocupa o cargo de director-geral. Ali fica durante 10 anos.
É uma altura em que o Grupo Blandy decide alterar o espírito de gestão da antiga empresa.

Empresário

Chegado a 1984, surge a necessidade de fazer uma transformação na Madeira Wine. Há que alterar a sociedade por quotas para sociedade anónima.
Nessa altura deixa de ser director-geral da Madeira Engeneering. O grupo Blandy está em reestruturação e é criada uma divisão para a indústria, agrupando as empresas que têm este carácter. Martins Soares fica à frente.
Em 1989 decide lançar-se num novo desafio com o seu sócio Macedo. Propõe a compra da Madeira Engeneering à família Blandy.
Depois de algum tempo de negociações, que hoje reconhece não terem sido difíceis, fica com a empresa especializada na construção e reparação de navios.
Posteriormente cria, juntamente com o seu sócio, a Onda Madeira, que representa na Região os automóveis Honda, para além de outros negócios. Um outro projecto esteve na calha, mas acabou por não ser sequer implementado por diversos imponderáveis. Dava pelo nome de Macnavis.
Martins Soares recorda que, quando são negociados os termos do acordo com o governo para a Madeira Engeneering sair do estaleiro da Zona Velha em direcção à Zona Franca Industrial do Caniçal, uma das ideias que está presente é o encontro de um parceiro estratégico para vencer etapas e conquistar mercado mais depressa. Vários surgem no horizonte. Acabam por fazer uma “joint-venture” com o Grupo Mello, que tem a Lisnave em Lisboa. Corre bem até uma certa altura, mas depois as coisas precipitam-se e todo o processo encontra-se em “stand by”.
Não obstante, embora a Macnavis nunca tenha chegado a funcionar, a transferência da Madeira Engeneering para o extremo leste da ilha acontece e hoje a empresa está a trabalhar normalmente.

Presidente da ACIF

Paralelamente ao percurso empresarial, em 1982 é convidado para presidir à Associação Comercial e Industrial do Funchal - Câmara de Comércio e Indústria da Madeira (ACIF-CCIM). Aceita e cumpre dois mandatos consecutivos (de três anos cada). O máximo permitido pelos estatutos internos. Mais tarde é presidente da Assembleia Geral durante seis anos, o que acontece até ao ano 2000.
Durante este período, a ACIF-CCIM procede à comemoração dos 150 anos de existência. É uma ocasião de ouro, com a associação a ver-se condecorada pelo Presidente da República.
Martins Soares recorda esse tempo com grande saudosismo. Um período em que são postos em marcha projectos como a adesão à então Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia), a criação Zona Franca da Madeira e a implantação da Expomadeira. Martins Soares põe de pé a primeira edição da “montra da Madeira”, num parque de estacionamento do Pestana Carlton Park Hotel. Na abertura está presente o então Presidente da República, Ramalho Eanes.

A Expomadeira

É o empresário que inventa e regista o nome da feira que considera ter sido um grande desafio onde tudo está por organizar. Só com muita luta consegue pô-la de pé. Num esforço conjunto onde se incluem nomes como Francisco Costa e João Silvério Cayres.
Para a História fica a presença de 90 “stands”.
É também nessa altura que a ACIF-CCIM organiza o “Madeira — Pensar o futuro”, composto por três painéis: um regional, um nacional e um internacional, que decorre no Funchal durante três dias.
O primeiro painel foi moderado pelo Dr. Francisco Costa.
No nacional estiveram nomes como o Prof. Xavier Pintado, o Prof. Fausto Quadros, o Dr. Miguel Cadilhe, o Dr. Artur Santos Silva, entre outros. O Prof. Cavaco Silva, ainda longe dos tempos áureos como primeiro-ministro, esteve para vir mas acabou por não o fazer devido a outros compromissos.
É neste seminário que Miguel Cadilhe vem defender o que chamou de “ditadura financeira na democracia”, que, mais tarde, quando chega a ministro das Finanças, tenta aplicar.

Greenspan na ilha

No plano internacional, esteve na Madeira Alan Greenspan, hoje presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos da América, o homem dos dinheiros da grande potência, e Ghunter Raiman, que lidera o estudo inicial mandado fazer pela ACIC-CCIM sobre a Zona Franca, entregue posteriormente ao Governo. É editor do International Report, comprado mais tarde pelo Finantial Times, além de outras revistas muito técnicas.
Outra presença deste painel é a do prof. Braga de Macedo.
Os painéis nacionais e internacionais foram moderados pelo Dr. Jacinto Nunes.
A iniciativa terá contribuído, de alguma forma, para que Lisboa conhecesse melhor o capítulo da Zona Franca da Madeira.
Além desta componente associativa, chega a ser membro do Conselho Consultivo da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira. Pertence à Comissão Instaladora da Zona Franca, nomeada pelo Governo Regional, representando o sector privado.
É o primeiro presidente do Conselho Fiscal da empresa Cabo TV Madeirense.
Durante o seu percurso é vice-presidente do Conselho Superior da delegação portuguesa da Câmara de Comércio Internacional.
Isto para além de ter pertencido aos conselhos de administração e fiscal de várias empresas na Madeira e em Lisboa.

Aperfeiçoar

Além do curso que tirou no final dos estudos, Martins Soares tira uma série de outros de aperfeiçoamento ao longo da sua vida profissional, nomeadamente na área da qualidade. Tem uma especialização na área da qualidade da produção obtida em Espanha. Tem muitos outros na área de gestão.
Em suma, diz que sempre quis manter-se actualizado ao longo dos tempos, tal como ainda acontece.
Lê tudo quanto pode em matéria de gestão. Isto porque deixa para trás a componente de engenharia na empresa para se dedicar à gestão. A sua base de formação está assegurada com um dos filhos, que também é engenheiro e que tem o cargo de director de produção na Madeira Engeneering.
Além dos livros técnicos há outra área que o atrai: a História do século XX. A comprovar esta apetência está a biblioteca que tem em casa com inúmeros exemplares a retratarem a época.
O último livro que está a reler é a biografia de Wiston Churchill, precisamente uma grande figura de meados do século passado.

O ás do bridge

Em matéria de “hobbies” está o gosto particular de há muitos anos pelo bridge, que o tem permitido representar a Madeira muitas vezes em muitos torneios na ilha e fora dela.
Esta prática permite ao empresário poder desligar-se do seu mundo de negócios em virtude de o jogo exigir muita concentração. Uma concentração que também necessita quando lê um bom livro policial que tanto aprecia para descontrair.
A nível de desporto propriamente dito é praticante de golfe e anda muito a pé, depois de uma juventude onde passa por quase todas as modalidades.
Aquela onde mais se evidencia é na esgrima. Chega a ser pré-seleccionado para os Jogos Olímpicos do México. Mas, como não há verba, ninguém vai de Portugal.
Durante os estudos universitários é campeão em inúmeras modalidades.
A nível de outros “hobbies” junta selos, depois de anos a coleccioná-los. Quando tiver mais tempo, pretende retomar a colecção. Talvez quando se reformar.
Gosta de ler todos os dias o Jornal da Madeira e o Diário de Notícias. À sexta-feira lê igualmente o Tribuna da Madeira e, ao fim-de-semana, os semanários do continente.
No domínio das leituras, além do gosto pelos policiais já referidos, gosta igualmente de ler clássicos estrangeiros e nacionais.
Em relação à Internet, tem uma frase “sui generis” que caracteriza a sua utilização: «Uso a Internet. Não abuso da Internet.»
Ou seja, só a utiliza quando não tem hipótese se aceder à informação em papel.
No trabalho diário não tem um tempo médio estimado. Depende dos dias e das situações.
Uma coisa é certa. Trabalha melhor à tarde e à noite. Um hábito que vem dos tempos de estudo.
E trabalha igualmente melhor quando tem música de fundo. 


2002-06-07
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