Maria José Sousa


Mariazinha, a padeira


Começa cedo a trabalhar na padaria do pai, na Rua de Santa Maria. Algum tempo depois tem de segurar, sozinha, as rédeas do negócio, que acaba por adquirir totalmente. O pão ganha fama. E Mariazinha torna-se uma figura carismática da Zona Velha da cidade.

Estuda como as crianças da sua idade. Faz a escola primária. Chega a participar no exame de admissão ao liceu.
A ideia de Maria José Sousa, que há muito é conhecida por Mariazinha, a padeira, é continuar. Quer seguir até concluir o curso para ser professora.
Contudo, a vida prega-lhe uma partida. Dá uma queda. Como resultado, corta os tendões de uma mão. Ainda hoje sente dificuldade em escrever com a mão direita que, contudo, não inviabiliza que consiga fazê-lo bem.
Com este compasso de espera, encontra ocupação para fazer quando ainda tem 12 anos.
Os pais residem na Rua Dr. Juvenal, onde existe uma grande fazenda. Fica com a missão de cuidar de alguns animais que o pai tem em casa. Os anos passam.

Na padaria com 16 anos

Já com 16 anos, vai trabalhar para a padaria que o pai tem na Rua de Santa Maria. O negócio já conhecera melhores dias.
Por essa altura, a padaria que o pai tem, em sociedade com Manuel Veloza Faria, está falida.
Com o negócio naquele estado, o sócio do pai dispõe-se a vender a sua parte. Facilita a venda da sua parte por 50 mil escudos.
Mariazinha encontra um fiador: José Clemente da Silva, ligado à indústria de bordados.
Com apenas 16 anos, toma conta da padaria, juntamente com o pai. De três em três meses paga o estipulado com o fiador: 3.300 escudos, para amortizar a dívida, de que toma a responsabilidade com o pai.
O nome pelo qual é conhecido o negócio é alterado para Padaria Mariazinha a 4 de Junho de 1955, altura em que o dr. Sales Caldeira constitui a nova sociedade, onde ficam 80 por cento para o pai e 20 por cento para Maria José Sousa.
Por aquela altura, são amassados 150 quilogramas de farinha, o que é muito.

Pão às costas

Daí que Mariazinha tem literalmente um grande peso nas costas.
Anda pela cidade e pelos estabelecimentos de saca com pão às costas. Não há carro de apoio.
Chega a ir a pé ao então Hotel Avenida, no final da Avenida do Infante, onde hoje está o Conservatório de música.
Os primeiros tempos na padaria que partilha com o pai, conhecido por Manuel "o cambado", não são nada fáceis.
Um dos problemas que encontra é ser mulher e ter a ousadia de trabalhar e, ainda por cima, estar à frente de um negócio. Não cai muito bem numa sociedade onde a maioria das mulheres fica em casa a cuidar dos filhos.
Chega a levantar-se às duas e três da manhã para contar o pão que irá pegar e levar numa saca às costas por essa cidade que ainda dorme.
Um dia, vem de casa, pela calada da noite, atrás de um homem que carrega, igualmente às costas, um cacho de bananas. Vem sempre no seu encalço, mais atrás, por considerar que, assim, tem alguém que a proteja em caso de surgirem ladrões ou malfeitores. Além disso, considera que é mais uma pessoa que tem de acartar o triste fardo da vida.
A dada altura, surge um polícia no caminho. O homem que segue à frente larga as bananas no chão e foge. O polícia pergunta se conhece a figura que escapa na escuridão. Diz que não. Conta antes que vem atrás para ter mais segurança.
Contudo, nem quer acreditar quando o agente da autoridade lhe diz que é um ladrão que acaba de se esfumar.

Com as rédeas do negócio

Algum tempo depois, o pai sofre j um problema de saúde. Fica gravemente debilitado. Mariazinha segura o barco sozinha. Apoia sempre o progenitor até à hora em que este é parte para a última viagem.
Tem de cuidar do negócio. E da família, concretamente a mãe e a irmã mais nova.
Mariazinha, a padeira, conta com o apoio do dr. Sales Caldeira para a ajudar nesta fase difícil da sua vida.
É ele, inclusive, que a leva a ser sócia do Clube Desportivo Nacional.
O trabalho, que antes já era difícil, fica mais sobrecarregado.
Trabalha e chora, de tal forma que não deseja semelhante vida a ninguém.
Por altura da partida do pai, surgem interessados na compra da parte dos herdeiros. A Associação dos Industriais de Panificação no Funchal, à qual não pertence a padaria, também quer adquirir a parte dos herdeiros.
Com essa pressão, acaba por pagar 20 mil escudos pela parte do irmão mais velho, António. Uma parte que diz não valer nada.
Posteriormente, vai comprando as partes dos outros herdeiros.
A dado momento da sua carreira, conta com o apoio do marido, que, entretanto, tem de cumprir o serviço militar obrigatório. Regressa. Algum tempo depois, as contas da empresa nunca batem certo. O marido segue o seu caminho noutro lado. Mariazinha continua a tomar as rédeas da empresa. Até hoje.
No entanto, passa por grandes dificuldades. Chega a dormir na própria padaria, em cima de camas mal amanhadas. Más as adversidades dão-lhe força para continuar. E crescer como empresária empreendedora e figura carismática da Zona Velha da cidade do Funchal.

Amplia investimentos

Anos mais tarde, amplia a rede de padarias. Compra a padaria "Brasileira", no Chão da Loba.
Mais tarde, outra no Transval.
Mesmo assim, admite que, não fossem alguns contratempos, hoje teria ainda mais.
Com três padarias, em duas das quais tem os filhos à frente, decide investir na hotelaria, no edifício e noutros limítrofes que compra na Rua de Santa Maria, onde tem a padaria. Compra o edifício em 1977.
Contudo, a aquisição dos imóveis, os trespasses e conseguir fazer sair as pessoas que ali vivem dá muito trabalho e exige muito dinheiro. Para o efeito, conta com o apoio do dr. Baltazer Gonçalves. A maior parte das vezes, as compras são efectuadas recorrendo à banca.
Só em 1987 consegue ter todo o edifício para si. Só nessa altura saem completamente os últimos moradores para habitações sociais, mediante o pagamento de indemnizações.
Grande parte dos imóveis que adquire está degradada. Inclusivamente, chove dentro da padaria. Uma inspecção chega a colocar contratempos. Contudo, Mariazinha pede mais um prazo para proceder às obras que idealiza.

A residencial

Mariazinha não esconde que, desde o primeiro dia que para ali vai trabalhar, sempre alimentou a esperança de comprar o edifício para construir uma residencial sobre a padaria.
Vozes sabedoras dizem-lhe sempre que "temos sempre o que plantamos". Isso dá-lhe força. Não descansa enquanto não consegue adquirir todo os prédios.
Em 1997 começam as obras.
Anos depois, inaugura a requintada residencial. Tem nove quartos e uma "suite".
Mantém a traça original, com adaptações para o turismo.
Continua a amassar o pão da mesma forma que aprendeu das mãos do seu pai.
Todos os dias vai à padaria.

Mulher empreendedora

Mulher empreendedora, sempre habituada a trabalhar diariamente, diz que seria bom ter menos uns 20 anos para poder fazer mais. Contudo, admite que a saúde não deixa grandes rasgos para empreender muito mais. Mesmo assim, quer ter forças para reconstruir a casa onde mora, mesmo em frente à padaria.
Nos tempos livres que encontra na sua vida, Mariazinha aprecia particularmente a política. Aprecia figuras como o presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, o prof. Virgílio Pereira, o general Carlos Azeredo, entre outros.
Contudo, não é política nem tem aspirações a tal. Mas gosta de ler nos jornais tudo o que se refere a este motor social, assim como ver o da televisão, que lhe mostra um mundo que não tem gosto particular por visitar.
As vezes que sai da Madeira deixam grande saudade de um regresso apressado ao seu negócio, pelo que não nutre especial vontade de sair.
Diz mesmo que, quando sai do negócio, fica doente.

Trabalhar em equipa

Hoje em dia tem 10 pessoas a trabalhar consigo na padaria da Rua de Santa Maria. Depois de já ter tido 30.
Juntam-se a este número mais três pessoas que trabalham na residencial.
Regozija-se por nunca ter conhecido uma greve nem ter tido problemas laborais nos seus negócios. Tem funcionários com mais de 30 anos de casa.
Lembra mesmo as grandes noites onde, num ambiente familiar, trabalham, todos, com motivação, até de manhã. Aliás, considera que quem dirige empresas só tem a ganhar se for realmente amigo daqueles que colaboram consigo. Se assim não fizerem, não conseguem ter uma equipa unida.

BI

Nome: Maria José Sousa
Data de nascimento: 1936-12-17
Naturalidade: São Gonçalo, Funchal, Madeira


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