Manuel Fernandes


O “embaixador” em Lisboa

Abre “O Madeirense” nas Amoreiras. Hoje tem 19 áreas comercias no sector da restauração e prepara-se para abrir mais. Na Madeira não prevê abrir. Guarda-a para estar com os amigos.


Começa a trabalhar aos 10 anos, nos Canhas. Depois, na Ponta do Sol e no Funchal.
Um dia sai-lhe o Totobola. Manuel Fernandes resolve procurar melhores condições que lhe proporcionem um futuro mais promissor.
Deixa a hotelaria na Madeira. Em 1969, mete-se num barco. Ruma a Lisboa. Manuel Fernandes chega à capital com 16 anos. Volta a trabalhar na hotelaria. Um sector que sempre desejou e onde gosta de trabalhar.
Um ano depois de chegar a Lisboa, em 1970, começa a trabalhar no restaurante “O Convés”, do grande empresário Vasco Morgado, que, na altura, é dono dos teatros. Ali param todas as figuras do país, do teatro, da rádio e outros artistas, como o cantor brasileiro Roberto Carlos, com o qual tem uma fotografia a perpetuar o encontro e que, na altura, estava no topo da carreira com músicas como “Calhambeque”. Assim, de um momento para outro, está ao lado do cantor que ouve na “Música Pedida”, nas rádios da ilha que o vê nascer.

Arte de bem receber

Nessa mesma altura é pai de uma filha que hoje o acompanha no restaurante “O Madeirense” do Amoreiras Shopping, em Lisboa.
Com os conhecimentos da vida, cria um elan que perdura até hoje. A arte de bem receber mantém-se ainda hoje. Desde o cidadão anónimo que o conhece até à figura pública mais mediática, existem palavras recíprocas que atestam o bom acolhimento que o “embaixador” da Madeira em Lisboa proporciona aos clientes.
É assim, com naturalidade, que clientes dos primeiros tempos de Lisboa continuam, ainda hoje, a ir aos seus restaurantes.

Os teatros da fama

Essa onda de simpatia, evidenciada desde a primeira hora, faz com que Vasco Morgado passe a admirar cada vez mais o madeirense. Dá-lhe a concessão dos bares dos teatros Maria Matos e Vilaret. Nos tempos áureos.
É neste último teatro que a RTP grava os concursos famosos da época em que só existia aquele canal: “Cornélia” e “A prata da casa” e também os festivais da canção.
Passa a conhecer ainda mais gente.

O grande passo

Poupado, consegue guardar dinheiro. Decide arriscar numa nova etapa na sua vida. Quer ter um restaurante seu. E assim acontece.
Por gostar muito da ilha que o vê nascer, e por muita gente o conhecer como “o madeirense”, decide colocar o nome “O Madeirense” ao restaurante. Procura nos registos para ver se o nome está disponível. Por sorte, está. Regista-o.
Vem à Madeira falar com a mãe para levar receitas genuínas regionais para o seu novo restaurante. Leva, inclusive, um cozinheiro da Madeira.
Não é uma tarefa fácil, Mas a aposta começa a surtir efeito. Os conhecimentos ajudam na progressão. Algumas reportagens em órgãos de comunicação social de grande implantação na capital e no país dão um empurrão.

“O Madeirense”

O novo restaurante está implantado em Sete Rios. É pequeno. Tem 40 lugares.
Manuel Fernandes e a mulher trabalham com afinco. O espaço começa a ser pequeno para a procura. Começam a sonhar mais alto.
Surge a hipótese do Amoreiras Shopping Center. Na altura, poucos arriscam no projecto inovador do arquitecto Tomás Taveira das torres envidraçadas.
Manuel Fernandes está indeciso. Ao mesmo tempo que vislumbra um mar de oportunidades, com um espaço comercial a nascer no coração de Lisboa, com todo o potencial que tem, e uma área muito maior do que o pequeno “Madeirense”, sente que é um risco e um grande passo.
Vê outros espaços. Até que se decide. Pelas Amoreiras.
Arrisca e faz o projecto com que sempre sonha, com grande dedicação e arrojo. Sente que tem capacidade para o concretizar.
O primeiro ano é difícil. Depois cria raízes e conquista cada vez mais amigos e clientes. Muitos são as caras conhecidas da capital que encontram no encanto da ilha em Lisboa o local ideal para as suas refeições de lazer ou de negócio. Ao restaurante “O Madeirense” das Amoreiras vão políticos, advogados, jornalistas, gente do meio artístico e do desporto e uma infindável lista de personalidades.
Já com o restaurante a navegar em “velocidade de cruzeiros”, e por estar num centro comercial, começa a abrir outros negócios dentro do mesmo ramo da hotelaria.

Diversificar a aposta

Cria o “Prego & Companhia”, que, curiosamente tem como primeira experiência o Anadia Shopping, na Madeira, entretanto já vendido.
Cria igualmente a “Taberna Portuguesa”, de que tem três restaurantes, as seis “Boutique Café”, que também cria na Madeira no mesmo espaço comercial e que também já não é seu. E aí por diante.
Feitas as contas, hoje, Manuel Fernandes tem 19 espaços de restauração abertos. Todos no continente. Só nas Amoreiras tem cinco, o mesmo número de que dispõe no Centro Comerial Colombo.
Desde que inicia a aposta nos centros comerciais, mantém a intenção de continuar a investir nas novas centralidades. Entende que é aí que cresce e se sente bem.

Mais restaurantes

Em fase de projecto estão outros restaurantes.
Para Abril vai abrir quatro restaurantes e, possivelmente, cinco. Todos na área de Lisboa e arredores.
Presentemente existem quatro restaurantes “O Madeirense” e, a partir de Abril, o número vai aumentar para seis ou sete. Já tem um em Almada, no Almada Fórum, e prevê abrir mais um “O Madeirense” no Montijo, em Odivelas, e, possivelmente, no centro comercial Vasco da Gama, no Parque das Nações, em Lisboa.
Manuel Fernandes sublinha que a grande aposta tem sido o “Prego & Companhia” e as “Boutiques Café”.
Quanto ao restaurante “O Madeirense”, recorda que existem dois tipos de espaços baseados neste nome. O principal, nas Amoreiras, que, tal como cresce, com os almoços de negócios, se torna um restaurante de luxo e de uma certa cerimónia da cidade.

Madeira, só para amigos

Os outros chamam-se “Casa Madeirense” e caracterizam-se por serem mais práticos e terem um preço mais acessível. Aposta igualmente na gastronomia madeirense, mas surge mais apropriado para as famílias.
Investimentos na Madeira não estão nos seus horizontes. Tudo porque gosta de vir à ilha, mas para confraternizar com os amigos. Quer ter tempo para conversar. Sabe muito bem o tempo que um restaurante exige.
No caso concreto de Lisboa, há cerca de seis meses que não faz outra coisa que não seja sair de casa para o trabalho e vice-versa.
Presentemente tem 170 empregados sob a sua responsabilidade. Uma realidade que diz ser bem diferente do que idealiza no início, em que apenas sonha ter um “restaurantezinho”. Mas, como diz, as coisas vão acontecendo.

Projectos

Hoje tem múltiplas missões, como seja a abertura de novas casas e, consequentemente, reestruturar a empresa para a colocar de acordo com os negócios que tem presentemente.
Manuel Fernandes diz que a evolução até pode passar pelo “franchising” da marca “O Madeirense”. Um processo em estudo por um grupo de advogados, que avalia outras vertentes respeitantes à reorganização.
Mas refere que não está muito inclinado para aí. Não é muito apologista do “franchising”. Defende antes parcerias com pessoas interessadas. Neste âmbito, está a estudar várias hipóteses, algumas já concretizadas.
Tem convites para abrir um restaurante “O Madeirense” no Algarve e um no Porto. E, como são locais longe, só com parcerias. Entende que, se assim não for, não tem qualidade. E não a quer perder.
A cerca de um ano de fazer a festa dos 25 anos, diz que quer manter intacta a imagem com que começou, de carinho, simpatia e qualidade.
Manuel Fernandes tem a particularidade de, antes de ver uma pessoa que vai aos seus restaurantes como cliente, a ter como amiga. Ironiza e diz que ainda vão à sua casa e pagam.

O futebol

Dedica cerca de 16 horas ao trabalho diário. Tempo menor do que nos primeiros anos, em que eram 24 horas quase consecutivas.
Por isso mesmo, não tem muito tempo para “hobbies”. Nem tem tido ocasião para vir à Madeira.
Depois de muita dedicação ao Marítimo, durante nove anos, hoje apenas encontra um espaço para o Ponta-solense. Vai vê-lo jogar, quando está em Lisboa ou arredores. O mesmo se passa em relação ao Marítimo, quando vai à capital.
Os seus “hobbies” assentam, por isso, no futebol.
Além dos clubes da Madeira, Manuel Fernandes é adepto e sócio do Sporting. É o sócio 24.000.
Gostaria de praticar golfe, onde tem muitos amigos. Mas não tem tempo.
No fundo, o que gosta cada vez mais de fazer é trabalhar nos seus restaurantes. E abrir novos espaços comerciais.
O quotidiano de Manuel Fernandes passa indiscutivelmente pelas Amoreiras. Noutros dias vai aos outros restaurantes. Não obstante, está em permanente contacto com os restaurantes. Um contacto onde não utiliza muito as novas tecnologias, como a Internet ou o correio electrónico, mas sim o telemóvel.
É, devido a esta dispersão de negócios, que Manuel Fernandes se assume como adepto da descentralização. Defende o papel de responsabilidade a quem está a dirigir, embora sempre coordenado por si. Inclusivamente já deu sociedade a funcionários, como acontece, por exemplo, com o restaurante do Colombo, onde tem um sócio de Machico, que trabalha com Manuel Fernandes há 15 anos.
A nível do restaurante “O Madeirense”, nas Amoreiras, apesar de a base ser a gastronomia tradicional madeirense, diz que tem de inovar pelo facto de ser frequentado muito por clientes repetentes. Introduz receitas nacionais no sentido de não cansar com a comida madeirense.
Nos outros restaurantes mantém a tradição.

O “embaixador”

Manuel Fernandes, actual vice-presidente da Casa da Madeira em Lisboa, não assume frontalmente a classificação de “embaixador” da Região na capital. Reconhece que o próprio presidente do Governo Regional costuma brincar com isso e que os clientes que vão ao restaurante “O Madeirense” sentem o seu carinho e o ambiente como se estivessem na ilha. Mas não evidencia essa designação. Cremos que por certa humildade.
Aliás, diz que não programa a sua actividade com esse intuito.
Orgulha-se de nunca ter utilizado subsídios para o seu negócio. Diz que, se o seu trabalho ajudar a Madeira, fica verdadeiramente satisfeito por isso. Aliás, está sempre pronto a ajudar a Madeira, o que faz, sempre que solicitado para tal, inclusivamente na cedência temporária de trajes tradicionais da ilha para programas de televisão, por exemplo, o que acontece em grande parte devido ao vasto leque de conhecimentos.

Estrelícia dourada

Entende que, com estes procedimentos, está sempre a ajudar a Madeira.
E, por tudo o que fez pela Madeira, pelos serviços prestados em prol do turismo da ilha, Manuel Fernandes recebe em 1990 a “Estrelícia Dourada”, atribuída pelo Governo Regional da Madeira.
Uma nota para referir que “O Madeirense” das Amoreiras tem sido palco, além das obras de arte que são os pratos tradicionais da Madeira, de inúmeras exposições.

Sevilha’92

Uma outra ainda para referir o convite feito a Manuel Fernandes para representar Portugal da Exposição de Sevilha em 1992. O empresário madeirense considera mesmo essa etapa como um marco histórico na sua vida. Durante seis meses disponibiliza comida tipicamente portuguesa da grande exposição da cidade espanhola, à qual junta os sabores, os cheiros e as cores da Madeira.
Mais tarde, com a experiência adquirida, volta a estar presente da Expo’98, em Lisboa. Em 2000 vai igualmente a Hannover, à exposição mundial. Mas, aqui, os resultados são para esquecer, com a fraca adesão ao certame da cidade no nordeste alemão. 


2003-02-07
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