Luciano Jardim

O organizador de viagens



Luciano Jardim programa viagens com prazer. É esse o seu meio natural que conhece perfeitamente, especialmente o mercado espanhol, para onde, anualmente, leva cada vez mais madeirenses.

Desde os tempos de escola que sente necessidade de ser financeiramente autónomo. Poupa ao máximo o dinheiro que o pai lhe dá e, desde os últimos três anos do liceu, até ao sétimo (actual 11º ano) trabalha durante as férias de Verão. Com o despachante de Alfândega José Manuel Sousa. E organizando bailes na Discoteca Picasso, no hotel Miramar.
É precisamente neste último ano que desperta a sua vocação para o mundo das viagens. Colabora com a agência Wagons-lits Cook na viagem de finalistas às ilhas Canárias.
Terminado o liceu Luciano Jardim dá primazia à irmã para tirar um curso superior. Sente-se com mais vocação para ganhar asas mais depressa e reforçar o voo de autonomia financeira que há algum tempo começou.

3 empregos

Termina o liceu em Julho. Em Agosto está a trabalhar na Wagons-lits Cook, na Avenida Arriaga, no Funchal. Faz transferes e assistências aos turistas continentais que, nesse ano de 1976, surgem em grande número.
A juntar a esta actividade, trabalha nos bares dos hotéis Bungavília, Estrelícia e Mimosa.
Em Outubro, começa também a dar aulas na Tele-escola. Tem três empregos. De manhã, na Wagonlit, à tarde, dá aulas, e, à noite, serve nos hotéis. Há dias que dorme duas/três horas. Aguenta este ritmo oito meses. Em três meses paga ao pai os 80 mil escudos que este lhe empresta para comprar o seu primeiro carro, um Mini.
Deixa o ensino. Passa a tempo inteiro para agência de viagens. Colabora no departamento de receptivo.

Os grupos

Entretanto, dá-se o acidente aéreo onde falece o seu colega Dromond Borges, responsável pelo receptivo da empresa. Fica com o cargo. Deixa a hotelaria. Trabalha no “incoming” com os operadores Thomas Cook e Jetours. Cinco meses depois, um colega seu, Luís Marques, vai fazer o serviço militar. Passa para o departamento de grupos da agência de viagens. Na exportação começa a fazer o que mais gosta: criar programas de viagens. Organiza excursões das várias paróquias. A primeira que põe de pé e vai é uma peregrinação a Fátima, Andorra e Lourdes. Não conhece nada do que vende. Antes disso só esteve em Canárias, Lisboa e Évora, onde foi acompanhar o Marítimo. No entanto, estuda o percurso com recurso aos guias Michelin.
Até então, os guias não fazem mais do que as excursões e os check-in dos hotéis. Luciano Jardim faz mais que isso. Ajuda as pessoas que necessitam até aos quartos. Leva as malas quando necessitam.
Antes de partir, porém, o gerente da agência tem de pedir ao seu pai autorização para que o jovem Luciano possa acompanhar a peregrinação. Numa altura em que ainda é necessário passaporte para estes países.

A criatividade

Na primeira viagem é posto à prova a sua criatividade quando regressa. Ao passar por Saragoça, depara-se com um piquete de greve a barrar a entrada no hotel Goya. Admite que a internacionalização da Wagons-lits Cook vai desbloquear a situação. Mas recebe uma resposta negativa do seu colega da cidade espanhola. Em Portugal já é tarde. As agências estão fechadas. O telemóvel ainda não chegou para facilitar.
Volta ao autocarro onde estão os 55 turistas da Madeira. Conta duas anedotas e diz que há uma ligeira alteração ao programa. Vão visitar a catedral de Saragoça, onde está Nossa Senhora do Pilar, a padroeira de Espanha. Mostra o monumento e descreve-o. As pessoas estão satisfeitas. Luciano Jardim continua a pensar para si como vai sair daquela.
Entretanto vão para as margens do rio Ebro, fala da fábrica de automóveis Ebro. Deixa as pessoas a passear. Entra numa pastelaria e consegue que façam 110 sandes de queijo e fiambre. Compra sumos. Distribui pelos assentos no autocarro. E continua a pensar na saída para essa noite antes de seguir viagem para Madrid, onde deviam pernoitar no dia seguinte. Decide ligar para a capital. Pergunta para o hotel se também estão em greve e recebe resposta que não há nada disso. Então questiona sobre a possibilidade dos clientes dormirem lá já essa noite. Do outro lado ouve palavras concordantes. Respira de alívio.
Os clientes começam a chegar ao autocarro. Ficam espantados com a inesperada refeição. O veículo inicia a marcha. E a sair da cidade. Mais duas anedotas e umas brincadeiras e começa a explicar o que se passa. Todos aceitam e dão palmas pela forma como consegue resolver. E, mais que isso, sem que se tenham dado conta. Chegam ao hotel, em Madrid, às 23.30 horas. Acaba por oferecer um programa mais completo na cidade no dia seguinte.
A partir daí modifica a forma de se fazer viagens na Madeira. Aprende com os colegas estrangeiros com que se cruza.
No ano seguinte à primeira experiência a Wagons-lits quase triplica o número de peregrinações. Inclui uma viagem a Itália.
Ao mesmo tempo, além da paróquia dos Álamos, começa a ganhar outras da Madeira e do Porto Santo.

Ritmo de trabalho intenso

O ritmo de trabalho aumenta.
Por vezes, chega a casa à Madeira no voo das 21 horas. Entrega a mala à mãe que a põe pronta para o dia seguinte. Entretanto vai para a agência. Emite os bilhetes de avião e parte no próximo voo das 7.
Outras vezes, e durante anos sai da Madeira em Maio e só regressa em Outubro.
No meio destas programações, lança viagens para Canárias. Com brochura a preto e branco impressa na Tipografia Andrade. Nesse tempo, entre 1976 e 1981, ainda não há a opção pelo charter. Utiliza as duas ligações directas que a TAP tem da Madeira com Gran Canaria no Verão.
Além disso, ainda tem as viagens de longo curso e grupo. Várias vezes acompanha grupos ao extremo oriente e ao Brasil.

A Barbosa

Em 1981 alguns quadros da Wagons-lits montam uma nova agência de viagens, a Barbosa. Luciano Jardim não faz parte do projecto. É um pouco autónomo dentro da agência.
No entanto, já com o projecto em andamento, o amigo Luís Marques, fala consigo. Pergunta se quer integrar a equipa. Pensa na proposta e, em 24 horas responde afirmativamente.
Em Maio desse ano, na Barbosa, assume o departamento de programação. É basicamente o mesmo que faz na anterior agência. Mas em maior dimensão.
Quinze dias depois já está a viajar com quatro ou cinco grupos. No ano seguinte faz o maior grupo alguma vez feito na Madeira. Uma viagem de acompanhamento do Marítimo que joga em Faro. São mais de mil pessoas. Ficam em Tavira, em Pedras del Rei, onde enfrenta alguns contratempos que consegue controlar e dar a volta. Em vez de ficar duas noites nessa unidade, a segunda é passada em Lisboa. Curiosamente, a operação é feita com o apoio do Club Vip (que, mais tarde, na fusão com o Mapa Mundo, culmina no actual Mundovip).
Acompanha grupos durante três anos, mas, depois, deixa essa tarefa para outros. As necessidades da empresa precisam cada vez mais de si por cá. Além do que já tem, fica com a incumbência das viagens dos clubes da região. Contudo, quando fica com as viagens organizadas do Círculo de Leitores, a partir do continente, tem de acompanhar os grupos. Chega a estar um mês inteiro em Marraqueche, Marrocos, com 1.000 pessoas, 250 em cada semana. Depois, com a mesma empresa, fica um mês em Paris. E assim por diante durante cinco anos, com escalas, por exemplo, em Londres e no Brasil.

Os charter com a Air Sul

Surgem novas companhias em Portugal como a Air Sul. Com ela faz a primeira grande operação charter, que permite baixar radicalmente os preços das viagens. Trabalha com a companhia dos aviões brancos dois anos. Até que esta fecha a porta.
Ocupa o seu lugar a Air Atlantis. Faz dois voos com esta companhia da TAP, e com a Portugália. Algum tempo depois, a Air Atlantis borrega e deixa de voar. Passa a trabalhar com a Air Columbus. As vendas sobem vertiginosamente. A Barbosa esgota a capacidade da transportadora azul e amarela. Além de Canárias, consegue fazer charter para Lisboa a 10 mil escudos.

O tal dos Charter

Com este feito, chega a merecer um comentário de Maria José Ritta, esposa do ex-Presidente da República Jorge Sampaio, então na TAP, quando a Barbosa vai receber o prémio de nº1 das vendas da TAP
O delegado de então da companhia na Madeira, José Morais, quando Luciano Jardim vai receber o prémio com os colegas, diz à directora da empresa que é ele o tal dos charter. Do outro lado ouve que se ele é o número da TAP, pode continuar sempre com as outras desde que não baixe as vendas da companhia de bandeira nacional.
Em 1996 sente que o projecto Barbosa tinha tido o seu tempo. Entre os muitos projectos que tem entre mãos, há o do Círculo de Leitores, que teria como destino em 2007 Cuba. Fala abertamente e passa este pacote para outros.
Por estas alturas, alguns colegas, entre os quais Luís Marques, deixam a Barbosa para abraçar um novo projecto. Na Bravatur. Luciano Jardim não vai. Mantém-se. Faz uma retrospectiva e vê o que foi feito com aquela empresa e olha com paixão pelos clientes que trabalham consigo. Além disso, tem grande admiração pela equipa e quer mostrar a si próprio de que forma, sozinho a coordenar, é capaz de conseguir. E consegue, no final de 2006 bate os recordes dos recordes.
Vence o desafio. Entende que é hora de partir para outra.

Saída para a Portimar Madeira

É convidado para liderar o projecto Madvia. Não o cativa suficientemente. Quer continuar nas agências de viagens. Vai para director comercial da Portimar Madeira. Leva consigo algumas pessoas da Barbosa e fica igualmente com a programação.
Consegue colocar a agência em número um. Abre novos balcões, como o do aeroporto e o da Avenida Arriaga, que desenha o layout.
Ao fim de dois anos e meio na empresa entende que tem a missão cumprida por ali.
Novamente, surge o convite do amigo Marques. Depois de o querer levar para a Bravatur e para a Madvia. Diz que, agora, tem de aceitar. Estuda e decide tomar as rédeas do operador madeirense.
Levanta o operador e, como é seu timbre, trá-lo para a liderança das vendas de pacotes de férias às agências de viagens.

O projecto Mundovip

Em 2002, está na BTL, em Lisboa. É sondado sobre a sua predisposição para aceitar um projecto de um operador nacional que pensa investir na Madeira. Diz, de pronto, que sim. Entende que lhe perspectiva novos horizontes.
Aí por Fevereiro, recebe a luz verde que o projecto vai avançar. Ainda faz a operação de Páscoa. Em Junho está de malas e bagagem no Club Vip Madeira. Um operador de viagens que mais tarde, com a fusão como Mapa Mundo, dá lugar ao Mundovip Madeira do grupo ES Viagens e de algumas das principais agências de viagens da região.
Hoje é director geral do operador e líder incontestado na programação de férias para as ilhas Canárias e com vasta programação para outros destinos mundiais, a partir de Lisboa e Porto, fruto da tal janela que vislumbra quando lhe endereçam o convite na capital. São pacotes onde consegue que o madeirense que opte por sair de uma cidade continental pague o mesmo que o cliente que resida naquele território, fruto da política Lisboa - Funchal, onde o operador assume o custo da viagem desde a Madeira e o regresso à ilha.
Ao longo de todos estes anos não esconde a felicidade de trabalhar com grandes equipas. Com pessoas que diz serem maravilhosas. Não esconde igualmente quem primeiro lhe deu a mão, o padre Sanches, da paróquia dos Álamos, e o seu amigo Luís Marques.
Releva a questão cultural das viagens que contribuem para a evolução dos madeirenses. Inclusivamente reconhece que aprende sempre que viaja.
Outro factor que releva destes anos é o apoio da família, onde evidencia o da mulher.




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