Lars Hansen


Um dinamarquês na Madeira


Lars Hansen nasce na Dinamarca. Não sabe quando desperta para a hotelaria mas recorda que sempre teve o gosto de viajar e conhecer o mundo e outras vivências. A hotelaria vem permitir conhecer melhor o mundo, tanto quando sai como quando fala com os clientes oriundos de diferentes países.


O pai trabalha em componentes eléctricos num dos maiores estaleiros navais do país. Estamos no final da década de 60 e o estaleiro enfrenta dificuldades. Está à beira de fechar.
Lá longe, a África do Sul está a recrutar técnicos especializados na mesma área na Europa. Com condições vantajosas.
Em Durban, há uma doca para reparação e manutenção que o pai de Lars Hansen conhece havia algum tempo, juntamente com um amigo, numa das muitas primeiras viagens de um navio acabado de construir, àquela cidade.

Inglês à força

Com a oferta de emprego lembra-se do que vira. Aceita logo a proposta.
Assim, o pai Lars e a esposa partem para a África do Sul, juntamente com os dois filhos. Lars Hansen lembra-se do dia em que chega da escola e o pai diz que tem de aprender, rapidamente, inglês. Espantado, pergunta a razão. O pai explica que vão deixar a Dinamarca e mudar para aquele país tão longínquo, lá no fundo do continente africano.
Lars Hansen tem sete anos e não sente grande vontade para aprender inglês, que faz através de cassetes.
Depois, tem a ideia de que África se resumia a um lugar onde as casas têm muros em redor para defesa dos animais selvagens.
Algum tempo depois, os Hansen estão a voar para a África do Sul a bordo de um avião da Pan-Am. Fica impressionado e não se esquece de ter comido a bordo um gelado no interior de uma laranja.
Chega ao destino. Fica algumas semanas em Joanesburgo para tratar da documentação, num hotel.

O drama das aulas

Quando chega a Durban, reencontra o mar e as praias. O pai volta a ver o amigo dinamarquês, que tem um percurso semelhante ao seu e que tem duas filhas.
Começa na escola. Lembra a preocupação de estar numa instituição diferente, tal como a língua.
No primeiro dia, Lars e o irmão vão para a escola juntamente com as filhas do amigo do pai.
Entra na escola e conta com o apoio da filha mais nova do casal amigo, que traduz o que os professores dizem. Além disso, os seus colegas brincam com a língua diferente de Lars.
Num intervalo do almoço vê um grande aglomerado com grande parte dos 500 alunos a olharem numa direcção. Curioso vai ver o que se passa. Vê o irmão a correr para casa, porque está cheio da escola.
Mas neste mundo completamente diferente consegue adaptar-se à cidade que considera linda e ainda hoje cheia de grandes potencialidades para o turismo.
Lá fica 12 anos na escola.
O último ano escolar tem como disciplinas base inglês e africanse (as línguas oficiais da África do Sul), geografia, matemática, arte, história e ciências. Para entrar na universidade tem de superar todas elas.
Termina a escola em 1980 com notas suficientes para entrar na faculdade. A maior parte dos colegas segue os cursos tradicionais de medicina, economia e gestão e direito. Lars Hansen sobressai por ser o único entre os cerca de 100 que deixam a escola que quer seguir turismo e hotelaria.
No país apenas há uma escola para esta área. Fica em Joanesburgo.

Fim da lista

Quando faz a inscrição, defronta-se com um contratempo. Por não ser sul-africano tem desvantagens. Vai para o fim da lista. Existem 60 lugares para 600 candidatos. Dizem, sem rodeios, que é melhor esquecer porque não tem qualquer hipótese.
Fica triste.
Mas o mundo dá muitas voltas. Lars Hansen é um brilhante jogador de pólo aquático na escola e nos “old boys” (os que já tinham saído da escola). Alguns jogam na selecção do país. Ainda jovem aluno tem o privilégio de entrar na primeira equipa dos “old boys”.
Treina intensamente. Começa às 14.30 horas, depois da escola, com a equipa da escola, de que é “capitão”, na categoria de sub-19. Às 17 horas começa com os mais velhos, até às 19.
Cloro na cabeça
A brincar, quando algo não sai muito bem nas aulas, dizem que tem cloro a mais na cabeça.
Entretanto, o “capitão” dos “old boys” diz que trabalha para uma seguradora proprietária de um dos melhores hotéis na África do Sul. E como sabe da pretensão de Lars diz que vai perguntar qual a oportunidade de lá entrar.
Semanas depois responde que estão a recrutar pessoas no hotel para o primeiro curso na área de hotelaria, na África do Sul, para chefias intermédias. Consta da componente prática, com trabalho no hotel. No final do ano vai à escola hoteleira fazer os exames. Recebe os certificados na mesma como se frequentasse a escola, mas beneficia da componente prática.
Assim acontece. Algum tempo depois está a fazer entrevistas para o Royal Hotel, em Durban. Um cinco estrelas muito elegante, a meio da cidade. Disponibiliza 540 camas (270 quartos) e 15 salas de banquetes. É um local que Lars Hansen considera fantástico.
Vai às entrevistas e logo lhe dizem que existem mais de 50 candidatos para dois lugares. Isso não o demove. Passa todas as primeiras fases até que há necessidade de chamar os pais para saber se conheciam as intenções dos filhos. Durante os três anos do curso, teriam de apoiar os estudos dos filhos, já que o hotel pagava o mínimo. Nessa altura, os pais estão separados. A mãe vai viver na Namíbia e o pai muda para outra cidade no próprio país. Surgem contratempos para conseguir uma oportunidade de juntar os pais na altura pretendida devido a dificuldades de ligação para a Namíbia.

Quatro para dois

É então encontrada uma solução. Apreciá-lo, segundo o que fez até aí. Fica triste e começa a ver que pode perder a oportunidade da sua vida. Mas o que havia demonstrado até à altura é suficiente.
São escolhidos quatro elementos para fazer três meses e ver quais os dois que seguem em frente.
Numa semana já tinha saído um candidato. Mais algumas e lá foi o outro. Lars completa o curso de três e aprende todo o mecanismo do hotel. Além da parte teórica, ganha muito com a prática diária.
No final do ano tinha de saber fazer tudo, desde a confecção de um prato à gestão, passando pela recepção, entre outras vertentes da hotelaria. São seis semanas que coincidem com o período de férias dos alunos normais da escola.
Contudo, os dirigentes da instituição começam a aperceber-se que os alunos dos hotéis que faziam exames no final do ano davam maior preparação aos alunos.
Por isso, o curso continua e amplia-se.
Terminado o curso, o director do hotel convida-o para chefe de compras. É uma secção com problemas. Lars Hansen tem a missão de a endireitar durante um ano.

Regresso às origens

Na sua mente está sempre a intenção de fazer um curso internacional para saber mais e comparar o que faz a hotelaria comparativamente à África do Sul.
Contudo, sai nova legislação. Lars Hansen tem de deixar a hotelaria e ingressar, durante dois anos, na tropa. A ideia não o agrada e não aceita ficar, apesar de considerar que a posição governamental estava correcta.
Dão-lhe três meses para sair do país. Isso força-o a procurar novo emprego.
Estamos em 1984. Regressa à Dinamarca. A mãe alerta para o facto de haver muito desemprego. Lars responde que quem pretende trabalhar sempre o encontra.
Vai de porta em porta entregar o currículo e falar com o chefe de pessoal.
Muitos dizem que tem qualificação a mais para entrar.
Mas consegue entrar no Sheraton. Fala com o director de pessoal. Entretanto, o subdirector, que tem um gabinete perto, sai e pergunta-lhe qual o hotel em que trabalhou anteriormente. Conhecia a unidade e reconhece que é excelente.

Sheraton

Três dias depois tem a oferta para ser chefe de portaria à noite. Não é o local que pretende, mas sempre é um início.
O hotel de luxo tem 90 quartos e é o maior de Copenhaga. Tem um restaurante e um bar muito famosos.
Faz nove meses de porteiro à noite. É promovido para um novo hotel que o Sheraton tinha conquistado na Noruega. Vai para Oslo dirigir a contabilidade na área das comidas e bebidas.
Lá fica um ano antes de ser promovido para director de comidas e bebidas.
Depois entende que é altura de partir para novas experiências. A China está nos horizontes. É aceite para trabalhar. Contudo, da Ásia telefonam a pedir que espere seis meses por atrasos na abertura do hotel.
Em resposta diz que não dá para esperar. Procura outro destino.
A Madeira
Pela primeira vez vem parar à Madeira. Os comendadores Joe Berardo e Horácio Roque tinham acabado de comprar o grupo Siet Savoy em 1987 e pretendiam introduzir alterações nas unidades como o Savoy.
Vem para a ilha como director de comidas e bebidas. Trata-se de uma situação que acontece devido ao agente que vai procurando novas oportunidades. É uma figura idêntica à dos jogadores de futebol. Lars não tem de pagar nada ao agente, o que já não acontece com a empresa contratante.
Neste ano 1987 toma conhecimento do Savoy, e são feitas mudanças.
Das recordações que tem desse tempo encontram-se os empregados e os clientes. Considera que hotéis à volta do mundo existem muitos e bons. Mas a componente humana faz a diferença no Savoy. Lars Hansen diz que lhe faz lembrar o primeiro hotel onde havia trabalhado, em Durban. Encontra o mesmo espírito.

O português

Aprende o português, que hoje fala fluentemente.
No primeiro ano vem solteiro. No seguinte traz a mulher, com grandes dotes culinários, que conheceu na sua passagem pela Noruega.
Passados dois anos, não havia mais desafios para Lars, o que vai contra o seu espírito empreendedor.
Surge nova oportunidade. É nas Caraíbas. Vai e encontra um hotel em Antígua, com empregados desinteressados.
O próprio hotel era sujo e o seu director desmotivado.
Lars Hansen cedo começa a pôr ordem na casa, ao mesmo tempo que procura outro lugar para trabalhar.
Depois de três meses encontra novo trabalho. Na China, num hotel que abria, que não era aquele que esteve para ir anteriormente.
Pede a demissão da unidade das Caraíbas. O chefe tenta desmotivá-lo. Reconhece que há muito a mudar. Está disposto a mudar e oferece o cargo de director-geral. É a primeira oportunidade para desempenhar tal cargo.

Viagem para a China

Mas decide sair. Responde que ainda não está pronto para ser director-geral.
Parte para a China em 1989, depois dos acontecimentos da praça de Tiananmen.
Entra para o Crowne Plaza como director de comidas e bebidas. É o primeiro hotel da cadeia americana a implantar-se naquele país.
Lá aprende muito sobre as diferenças entre o leste e o oeste. Vê igualmente como funciona uma sociedade com «cara de socialismo e cabeça de capitalismo.»
Ali fica dois anos no primeiro cinco estrelas abaixo de 750 quartos. O hotel tem 300 quartos.
É convidado, novamente, para dirigir o Savoy, como subdirector.
Desta vez, tem o aliciante de ter em projecto o novo hotel inaugurado este ano: o Royal Savoy.
Fica como subdirector durante dois anos. Nasce a primeira filha, Gabriela.
Mas as coisas não vão como pretende e é convidado para voltar à África do Sul para o hotel de origem: o Royal, como director-geral. Assim acontece: entre 1995 e 1997 é o director-geral do cinco estrelas, numa altura em que comemora 150 anos.
Encontra uma África do Sul diferente, alterada do dia para a noite, com situações opostas ao tempo do “apartheid”, mas mais radicais ainda.
Entretanto, está de férias num barco na Noruega. Toca o telemóvel. São os comendadores a convidarem-no a regressar ao Savoy para concretizar o que havia sido delineado anteriormente. É um grande desafio que contempla a construção do novo hotel. Regressa como director-geral.
Passado este tempo, Lars Hansen não esquece o grande suporte que tem permitido ter sucesso na vida: o apoio a 100% da mulher. Diz que nunca poderia enfrentar os desafios que teve pela frente sem o apoio familiar. Um apoio que implica sacrifícios, tirando férias quando os outros já as gozaram.
Paralelamente à função de director hoteleiro, Lars Hansen faz parte do conselho de administração da Summit Hotels & Resorts, uma marca de requinte e prestígio internacional.
Há três anos e meio nasceu Melanie.
Conhece mais mas fala sete línguas.
Como “hobbies” tem o golfe e o pólo aquático, desporto de que foi treinador do Nacional, que leva à primeira divisão. Hoje treina uma vez por semana.
O golfe é a sua paixão e pratica-o uma vez por mês porque não há tempo para mais.
Tem um bom relacionamento com os computadores e a Internet. Utiliza-os para o necessário.
Lê os dois principais jornais madeirenses e recebe notícias diárias de todo o Mundo a nível de turismo e de hotelaria. 


2002-05-10
Share This

Sem comentários:

Enviar um comentário

Contactos

biografiasmadeira@gmail.com paulosilvacamcho@gmail.com