José Morais


Da luz aos aviões e “check-in” na rua


José Morais caracteriza-se por ser uma pessoa de trato fácil. Uma virtude que lhe permite fazer muitas amizades.
A nível profissional tem o condão de ser exigente com todos os seus colaboradores. Uma exigência primeiro consigo próprio.
Inovador e empreendedor, desenvolve um percurso profissional no campo da aviação. A mesma que lhe traz alegrias e momentos de grande tensão em África quando tem de fazer “check-in” na rua para salvar pessoas em fuga.
Em 2001 deixa a TAP - Air Portugal. Ingressa na Air Luxor.


José Morais nasce na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. A mãe é natural de Leiria. O pai, de Coimbra.
Cresce em Lisboa. Na Estrela e no Bairro Alto.
Frequenta as escolas Machado de Castro e Veiga Baião, onde acaba o curso comercial. Chega a fazer o primeiro ano na área de economia.
Necessidades impulsionam cedo o jovem José Morais para o mundo do trabalho.
O pai trabalha na EDP. É uma porta aberta para o seu primeiro emprego na empresa eléctrica, onde há uma certa tradição familiar. Para culminar, o primeiro casamento é igualmente com uma colega da empresa. Trabalha nas então denominadas Companhias reunidas de gás e electricidade. Lá fica até ser “chamado” para a tropa.
Cumpre o serviço militar em Tavira, no sul do país. Depois vai para Tancos. Para a Força Aérea. É o primeiro contacto com os aviões que preenchem, até hoje (quase a 100%), o seu percurso profissional.

Entra na TAP

Apesar da curta passagem por Tancos, as áreas por onde passa despertam o interesse para o mundo da aviação.
A tropa termina. Regressa à EDP. Casa e tem três filhos: dois rapazes e uma rapariga.
O tempo passa. O dinamismo de José Morais colide com a profissão de estar a trabalhar sempre no mesmo lugar.
Surge uma oportunidade de “voar” na TAP. Concorre. Entra na transportadora em 1967.
Nos primeiros tempos está ligado à área financeira, no domínio da orçamentação. Adquire bastante conhecimento sobre a empresa.
É convidado para a área comercial, onde desenvolve vários projectos relacionados com as infra-estruturas, ao nível de escritórios, nas aberturas e fechos, organização...
O interesse pela aviação aumenta. A experiência na área comercial também. Nomeadamente na componente das vendas.
Passa para uma outra área. Mais ligada às vendas: a comercial. Estamos no início da década de 70.
É uma altura em que a TAP tem uma situação financeira saudável, sobretudo devido às ligações de África, muito lucrativas, e com os voos da amizade do Brasil.
Os tempos são tão bons que os lucros são distribuídos pelos empregados na Páscoa. São as “amêndoas” que os empregados tanto apreciam.
José Morais diz que é um tempo onde todos trabalham no sentido de a empresa ser cada vez mais eficaz e dar saltos qualitativos.
Assiste à evolução da frota na TAP.
Vê uma área das vendas muito diferente das componentes organizacionais, muito virada para os mercados. No entanto, dá força e saber a José Morais no sentido de ultrapassar barreiras que se colocam. Vence-as.
Em 1980 vem à Madeira trazer o colega Hélder Branco da Costa, que vem substituir o delegado na Madeira Ventura da Silva.

A Madeira

Mal pensava José Morais que, quatro anos mais tarde, surgiria o convite da TAP para substituir quem havia trazido anos antes. Quando aqui chega para ocupar novas funções é a segunda vez que vem à Madeira.
Dedica-se, “com alma e coração”, às relações humanas com todo o mercado. Procura e consegue conhecer bem o que ele é e a sua especificidade.
Reconhece que não é fácil chegar à Madeira sem conhecer ninguém. Ainda por cima para desempenhar o cargo de delegado da companhia na ilha, a única transportadora aérea nacional a efectuar então ligações com o continente.
Recorda que quando aqui chega ainda se sentem dificuldades a nível de transporte, em paralelo com o poder reivindicativo dos madeirenses para terem mais voos.
José Morais apercebe-se que, na realidade, a TAP tinha que ter um papel importante para uma ilha. Os voos não podiam ser vistos como um luxo. Antes uma necessidade premente que faz parte das acessibilidades.
Lembra o tempo em que existem os horários mas as irregularidades são evidentes.
Mas os tempos mudam e, falando como residente, que realmente se assume, diz que todos lucraram com o aperfeiçoamento das ligações. O seu sentir “madeirense” ajuda a fazer ver à TAP que a Madeira necessita de outra atenção. O seu objectivo é alcançado.

“Bad Jocker”

Durante o tempo de Madeira conquista um sem-número de amizades. Tem vários amigos e mantém desde há longo tempo um grupo restrito: o “Bad Jocker”. É um grupo de 20/30 pessoas que se reúne às sextas-feiras para jogar aos dados no pocker e, mais que isso, para manter vivo o convívio. Convívio que, periodicamente, dá lugar a um congresso que só contribui para solidificar amizades.
Mas o que é bom acaba depressa. Em 1987/88 termina a comissão na Madeira. Regressa a Lisboa para trabalhar na direcção de gestão de recursos humanos e materiais. Ali fica dois/três anos.
Surge novo convite para uma representação. Segue para a África do Sul, onde está pouco tempo. Diz que talvez tenha sido por uma questão de integridade sua e de coerência sobre aspectos de ordem profissional.
Recorda o tempo que passa naquele país do sul do continente. Sobretudo dos amigos que o acolheram entre a comunidade madeirense lá residente. «Foi relativamente fácil para mim o relacionamento, e serviu de trampolim para entrar em várias áreas no país que tem grande influência em determinados meios».
Não obstante o curto espaço de tempo que passa na África do Sul considera ter sido uma etapa positiva.
Assim, ao fim de um ano, está de regresso à sede.
É nomeado responsável pela qualidade na área comercial. Adquire novos conhecimentos de pormenor e do que é necessário para satisfazer os desejos de cada cliente.
Nestes cerca de dois anos conhece em profundidade as diferentes áreas que constituem e levam por diante um avião, como a manutenção, voo, unidades de handling e áreas comerciais.
Fecha-se mais um ciclo. Abre-se um outro. Uma nova representação espera-o. Vai para o Zaire e Congo. Ali encontra uma comunidade portuguesa, não muito grande, no meio da comunidade belga. É um local de passagem nas ligações entre Lisboa e Joanesburgo, que fazem escala em Kinshasa nos dois trajectos. A TAP consegue captar algum tráfego belga que, depois, é encaminhado, via Lisboa, para Bruxelas.
Não se trata de uma missão fácil devido aos problemas políticos que enfrenta. Começa a enfrentar problemas em Kinshasa, a nível de combustível. A alternativa estava do outro lado do rio, em Brazzaville, no Congo. A operação passa então a ser feita via esta última cidade.
De um dia para o outro José Morais depara-se com uma destruição total da cidade de Kinshasa. É hora de mudar para Brazzaville. É também mais uma página da vida que lhe mostra as dificuldades que, por vezes, as comunidades passam no exterior.
Presta apoio às comunidades portuguesas, belga, grega e árabe. Sente o sangue e os calafrios.

“Check-in” na rua

José Morais vê-se em Brazzaville a fazer “check-in” em plena rua. As pessoas fazem fila com o intuito de conseguir um lugar para fugir dos problemas. Diz que aquilo que viveu não é fácil de descrever. Mesmo sentir já é difícil, perante a ansiedade das pessoas de poderem estar dentro dos aviões e fugirem para os seus próprios países.
Não mais esqueceu esta fase da sua vida, em que anda constantemente a transportar gente de um lado para o outro do rio, com o risco de cair à água e perder-se na forte corrente do rio Zaire.
A determinada altura resolve, com outras entidades e jornalistas ir a Kinshasa. Tinha necessidade de ver como tinham ficado as instalações da TAP na cidade e no aeroporto.

Perigo espreita

Desembarca, do outro lado, sob vigilância. Pára-quedistas franceses esperavam. Civil, José Morais encontra-se no meio da guerra. Vê uma cidade totalmente pilhada. Felizmente, a delegação da TAP escapa. Marcam rumo para o aeroporto, o que implica passar a meio de manifestações quentes e fogo cruzado. Mas lá vai, com um motorista. A prudência é palavra de ordem. A vista era desoladora e os cuidados mais que muitos. A qualquer momento podem levantar voo para um destino de onde não há regresso.
No aeroporto tudo está de pernas para o ar. Lá estão as forças belgas e francesas. Não obstante, a parte da TAP fica quase intacta. Regressa à cidade. No outro dia volta com o encarregado da manutenção. Mas as instalações tinham sido assaltadas. Está quase tudo destruído.

Volta a Brazzaville.
Começa a pensar em voltar a Lisboa. Pouco tempo depois concretiza-o.
Em 1993 é convidado, de novo, a vir para a Madeira.
Já tinha casado novamente, desta vez com uma madeirense, que também trabalha na TAP. Vem por um ano. Com contrato renovável por igual período.
Considera que se criaram desmotivações no seio da empresa. Ao fim de oito anos, José Morais, em parelelo com os colegas do Porto, de Ponta Delgada e de Lisboa, resolve dizer adeus à TAP. Aproveita as condições que a empresa disponibiliza. «Nunca esteve em causa o nosso contributo, porque sempre fomos muito dedicados.» Mas é a hora de sair.
Em Julho de 2001 sai da TAP ao fim de 34 anos de serviço.
Na distribuição de prémios desse ano às melhores agências de viagens da re-gião, o administrador Fernando Mor vem à Madeira e agradece publicamente o trabalho desenvolvido por José Morais. Diz, com humildade, que não esperava nada disso, nem tão-pouco a oferta que teve. Fica a saber que o administrador estava a empreender acções tendentes a unir as pessoas e a recuperar a chama de outros tempos. «É uma pessoa de muito bom senso em que acredito», realça.
Deixa a TAP a 11 de Julho de 2001. A ideia é descansar e ir ter com mãe ao continente, alternando com deslocações à Madeira.
Mas os aviões não querem José Morais a tratar do mundo terrestre. No dia 20/25 do mesmo mês surge o convite para trabalhar na Air Luxor. Hesita. Não revela muito interesse.
Estabelece os primeiros contactos. Inclusive com o presidente da empresa. Paulo Mirpuri diz que, se estiver interessado, a partir de um de Agosto passa a figurar nos quadros da empresa. Aceita. Passa a ser o principal responsável da empresa na Madeira e precioso auxiliar da transportadora na sua fixação no mercado insular. Um mercado onde José Morais considera que a Air Luxor pode ter uma quota de 25%.
Reconhece que é uma actividade bem diferente da que fazia antes. A companhia está a operar há menos tempo e ainda está em fase de crescimento. Mas «desempenho estas funções com grande e igual prazer porque a minha maneira de ser é dar sempre o meu melhor onde trabalho.» E a verdade é que já se nota o dedo de José Morais nas operações da Air Luxor para a Madeira.
Hoje diz que trabalha mais. Conta com colaboradores que começaram do zero.
Entretanto, passa a residir na Madeira.
A nível do trabalho considera-se um exigente. Uma exigência a todos quantos com ele trabalham que diz começar consigo próprio.

“Hobbies”

Desde os 14 anos praticou desporto. Na EDP esteve na equipa da empresa. Esteve no Lisgás. Sai e vai para o Belenenses e termina a carreira como federado no Sporting.
Como “hobbies” adora fazer bricolage e jardinagem, que lhe permite descomprimir. Tirando isso, gosta imenso de trabalhar. Reconhece que, por vezes, prejudica a família em benefício do trabalho por querer estar sempre à frente. A inovar.
Utiliza as novas tecnologias, nomeadamente os computadores e a Internet. Considera que o e-mail veio revolucionar e acelerar as comunicações. Por isso tira grande partido dele.
Lê muito, sobretudo questões relacionadas com a aeronáutica. 


2002-03-29
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