José Carlos Costa Neves


O fascínio pela gestão privada

José Carlos Costa Neves começa a trabalhar nos Açores no sector público. Depois de anos naquelas ilhas regressa à Madeira.
Algum tempo depois de cá chegar entra na gestão privada. É director-geral da Rama.


Sai da Madeira aos 10 anos. Vai com os pais viver para Coimbra, onde faz o liceu, depois de efectuada a escola primária na “Levada”.
Estamos em Setembro. Três dias depois de chegar à cidade dos estudantes está no Liceu D. João III, hoje com outro nome. Nem tem tempo para se adaptar.
Desse tempo recorda um facto que ocorre, principalmente, nos primeiros dois anos na nova escola.

A pronúncia

Com a pronúncia vincadamente madeirense, numa cidade tida por se falar o melhor português (embora troquem os bês pelos vês), há uma atitude de um professor de Ciências Naturais que o marca. Ao aperceber-se que tem um aluno madeirense chama-o sempre ao quadro, durante um longo período, só para o ouvir falar e gozar.
Mas consegue ultrapassar essa fase e adaptar-se ao liceu. Termina os sete anos de aulas com muito bons amigos. Durante este longo período passa sempre férias na Madeira.
Quando chega a altura certa, entra para a Faculdade de Economia no ano lectivo de 1973/74, que abre nesse ano em Coimbra. No entanto, esteve preparado para ir para o Porto, em virtude de não haver o curso que pretende na cidade do centro do país.

Açores à vista

Faz todo o percurso estudantil conjugando a vida de estudante com a boa vida que caracteriza os alunos de Coimbra. Aos 23 anos está licenciado sem reprovar qualquer ano no liceu ou na faculdade.
A vontade da aventura espera-o. Surge a primeira oportunidade para a concretizar. Mal acaba a festa de formatura, um colega convida-o a ir para a ilha do Faial, nos Açores.
A ideia é entrar na Secretaria da Agricultura e Pescas, no âmbito do planeamento. Vai sozinho em Março de 1979 para uma ilha que não conhece.
Passa a ser membro do gabinete de planeamento do secretário regional da altura, Ezequiel Moreira da Silva, hoje conhecido pelos licores que produz.

Adjunto em S.Miguel

Adapta-se bem à vida local. Tem um grupo de amigos que o ajudam a combater a vivência na pequena mas bonita ilha, com o Pico plantado do outro lado do canal imortalizado por Vitorino Nemésio. O famoso Café Sport é um bom porto de abrigo. Encontra um governo em formação.
Ali fica dois anos.
Entretanto, o eng. Ribeiro da Cunha é nomeado secretário regional adjunto do presidente do governo regional, Mota Amaral. E talvez por conhecer os trabalhos de Costa Neves numa comissão regional de planeamento, convida-o para ir para o seu gabinete em Ponta Delgada, São Miguel. Acaba por ficar naquela cidade mais tempo: cerca de cinco anos, sempre no gabinete do secretário, que muda e passa a ser o dr. Nunes Liberato, que nomeia Costa Neves seu adjunto.

Cooperação Externa

No âmbito desse trabalho, tem a função da cooperação económica externa. Um papel importante no contexto dos Açores. Não só já existem financiamentos ao abrigo do fundo EFTA, entre outros, como também devido aos acordos de cooperação com a França, para a base francesa na ilha das Flores, onde se negoceiam quase anualmente contrapartidas pela cedência do espaço na pequena ilha, e com os Estados Unidos da América, por causa da base nas Lajes, na ilha Terceira. Estes “dossiers” estão consigo. Trabalha no mesmo edifício do presidente do governo, com quem se cruza algumas vezes.

Ilha do Pico

Acabam por surgir novos instrumentos e vai para a ilha do Pico em 1984, onde, aquando da sua passagem pelo Faial, faz muitos fins-de-semana com os amigos.
Na altura, é negociado com uma instituição alemã para bancária o financiamento de um programa grande de reestruturação total das pastagens e do sistema de produção agro-pecuária da ilha do Pico.
Costa Neves fica encarregue de instalar o Gabinete de Execução do Programa Agro-pecuário da ilha do Pico.
É nesta ilha, que tem o pico mais alto de Portugal, que passa os dois últimos anos nos Açores. Sai em 1986 e vem para a Madeira. Consegue a transferência ao abrigo de um regime de cooperação entre as duas regiões autónomas ao nível dos lugares de quadro.

Regresso à Madeira

Vem para a ilha que o viu nascer como técnico superior principal da Direcção Regional de Planeamento na Madeira. É director regional o Eng. Rui Vieira. Fica dois anos a aprender muito. Tem a responsabilidade do acompanhamento e a elaboração dos projectos ao abrigo do FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.
Até 1988 trabalha em planeamento do ponto de vista público. Contudo, desde o seu curso que a sua opção passa pela gestão privada. Assim, ao fim de dois anos, vai para um gabinete criado na Companhia Insular de Moinhos, da qual é sócio. O avô, João Vicente da Silva, é sócio-fundador da empresa.
Estamos em princípios de 1989.

Gestão privada

É uma altura em que a empresa inicia um processo de reestruturação com a criação da “holding” SGPS, com as várias empresas-filhas.
Trabalha num dos “ex libris” da cidade, o único edifício de tijolo, que espera venha a manter a traça, independentemente do que venha a ser feito.
Costa Neves é director de planeamento do grupo. Enquanto ali está, é criada uma nova empresa que funde a secção de rações da Insular com a Vitcaf, uma fábrica independente. Ambas têm equipamentos antiquados e obsoletos.
E, numa tentativa de optimizar recursos, que Costa Neves reconhece ter sido acertada, surge a Rama – Rações para animais, S.A.. É erguida uma nova e moderna fábrica de raiz.
A Rama é detida hoje a 100% pela Empresa Madeirense de Tabacos.
Costa Neves passa para a empresa, onde assume o cargo de director-geral, que ainda mantém ao fim de 11 anos.

Satisfação

Olhando para trás neste seu percurso profissional, diz claramente que não quer mais trabalhar na gestão pública porque é no sector privado que se sente bem e para o qual estuda.
Hoje, a Rama tem interesses noutras empresas. Tem participações importantes e responsabilidades na gestão de algumas empresas relacionadas com o sector das rações e produção agro-pecuária.
A Rama é accionista maioritária da Sodiprave, que tem um matadouro de aves, classificação de ovos e comercialização de carnes de frango, na qual tem a sua gestão e onde Costa Neves é presidente do Conselho de Administração. A empresa tem um grande projecto de 800 mil contos para construir um novo matadouro.
A empresa-mãe tem igualmente uma participação importante na Avipérola, produtora da matéria-prima para os aviários. É novamente Costa Neves que representa a empresa no Conselho de Administração. Pertence também ao Conselho de Administração da empresa Silomad, que desenvolve a actividade de armazenagem de cereais na Zona Franca Industrial do Caniçal.
Por outro lado, a própria Rama cria uma empresa, participada por si a 100%, que vai construir uma nova unidade de produção de frango, que vai fazer crescer a produção na Madeira em 25%.
Curiosamente, a Rama controla todo o processo produtivo de frango e vai estar directamente ligada à produção de 75% da produção total na Madeira.
A Rama, que se encontra instalada no Parque Industrial da Cancela, tem hoje uma certificação de qualidade, ao abrigo na norma ISO 9002, o que acontece desde Novembro de 2001.

A política

No meio do percurso conta-se a actividade política, que considera ter contribuído para a sua formação.
Curiosamente, a política começa nos Açores. Na ilha do Pico, onde vivem 5.000 habitantes.
Há poucos meses a viver na ilha, avizinham-se as eleições autárquicas. Os homens-fortes do PSD de São Roque do Pico, onde mora, embora trabalhe noutro concelho, convidam-no para ser candidato independente pelo partido a presidente da Assembleia Municipal de São Roque do Pico. Fica a pensar porque considera ser uma afronta às gentes da terra ser uma pessoa de fora a assumir tal cargo. Diz isto mesmo a quem o convida.
Por outro lado, refere igualmente que não vota há algumas eleições. Por esse facto pensa que está impedido, por lei, de exercer cargos públicos. Mas esse articulado não está mais em vigor. Não tem mais argumentos.
Aceita e é eleito numa altura em que o PSD é dominante. Costa Neves nem faz campanha.
Exerce o cargo até deixar a ilha. Considera a experiência interessante.
Na Madeira, o amigo Ricardo Vieira insiste para que entre para o CDS. Costa Neves resiste. Pensa para si que, se quisesse ter actividade política, nunca o poderia fazer dentro do sistema. Mas também se apercebe que é muito complicado fazê-lo fora do sistema.
Por isso quer e consegue manter-se à margem em algumas eleições para se concentrar no trabalho que desenvolve.

Política à distância

Contudo, há um ano em que surge uma corrida às urnas para as autárquicas onde o PS está coligado com o CDS. Ainda tenta apresentar argumentos no sentido de não se apresentar na corrida às eleições. Acaba por ceder e surge como candidato independente do CDS nessas eleições na coligação para a Câmara Municipal do Funchal. As eleições acabam por eleger um presidente do PSD, tal como acontece em escrutínios anteriores.
Passa a estar ligado ao partido. Concilia esta actividade com a política. Chega mesmo a ser eleito deputado na Assembleia Legislativa Regional da Madeira pelo CDS.
Mas como nunca pensa seguir carreira política decide sair. Acompanha a política à distância.
Não tem um tempo de trabalho diário médio. Gere o seu dia-a-dia consoante as necessidades.

Carros antigos

Ao nível da Internet diz claramente que não vai muito com ela. As más experiências que tem conhecido não lhe deixa grandes recordações. Mesmo assim, não deixa de lá ir para satisfazer o seu “hobby” principal, que é também uma das suas paixões: os carros antigos.
O primeiro carro antigo que compra, ainda está em Coimbra, no terceiro ano da faculdade. É o resultado do dinheiro que ganha ao dar aulas de Matemática num colégio na Nazaré, quando substitui uma colega durante três meses. Compra um Austin de 1946, a meias com o irmão, Henrique. Um carro que hoje é do irmão. É ainda na cidade de Coimbra que os dois irmãos se dispõem a consertá-lo.
Hoje tem muitos carros antigos. Com frequência desmonta e monta aos fins-de-semana os carros, juntamente com Henrique.
No domínio das novas tecnologias tira igualmente partido delas ao nível do correio electrónico.
Gosta igualmente de cavalos. É por intermédio deles que conhece a mulher, em Coimbra. Faz parte da direcção da Associação Hípica da Madeira, onde tem um cavalo. Um filho tem o mesmo gosto e monta no elegante animal.
No domínio das leituras, lê jornais e revistas. Já leu muita literatura. Gosta dos russos clássicos. Não aprecia muito os escritores nacionais modernos, apesar de haver excepções, como José Cardoso Pires. Dos antigos delira com Eça de Queirós, do qual já leu três vezes a obra “O crime do padre Amaro”.
Hoje lê muitos livros técnicos, sobretudo de carros antigos.
Ao nível da actualização de conhecimentos, lê muita informação.



2002-08-23
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