José Camacho

Um gentleman a bem receber 

José Camacho sai da Madeira quando tem pouco mais de 20 anos. Parte para Londres à procura de melhores oportunidades. O turismo abraça-o e o hoteleiro madeirense
agarra-o com afinco e dedicação até aos dias de hoje.
Há 14 anos está na sua ilha de encanto e recebe os clientes com mesmo sorriso de sempre e arte de bem receber que o caracteriza.

Começa a trabalhar num tempo difícil. A segunda guerra mundial devasta a Europa e a economia é muito débil. O pai vai mesmo como voluntário para servir as tropas aliadas.
Com a ausência do progenitor, José Camacho tem pela frente uma vida menos fácil. Há necessidade de trabalhar.
O primeiro emprego é numa fábrica de conservas junto à sua casa, na Ponta da Cruz, no Funchal. Quase toda a produção segue para Itália em latas de cinco e 10 quilos. Reconhece que se trata de um grande negócio.
Ali fica algum tempo.

Das conservas ao cônsul
Em 1947/48 o cônsul inglês vai buscá-lo para para trabalhar na sua residência na Quinta do Favila, que hoje já não existe.
José Camacho conhece algumas palavras de inglês e a nova oportunidade permite não só ampliar a familiarização com a língua britânica como aprender a arte de bem receber as pessoas na residência do cônsul de Sua Majestade na Madeira. São oportunidades que, mais tarde, se tornam fulcrais.
Apesar de ter de cumprir o serviço militar, o cônsul não desiste dos seus préstimos.

A saída da Madeira
José Camacho considera que, para a altura, ganha bem. Contudo, houve confidências de que os tempos estão a mudar. Por isso, torna-se aconselhável mudar de ares para um lugar com mais futuro. Falam de lugares como Inglaterra, Canadá ou Austrália. É só escolher. Depois tratam da carta de referência para facilitar a entrada no mundo laboral nesse mesmo país.
José Camacho tem irmãos no Canadá, e a hipótese de escolher este país começa a seduzir. Contudo, pela convivência com o mundo das ilhas britânicas, quer visitar primeiro a Inglaterra, nomeadamente a cidade emblemática de Londres.
Hoje diz que ainda bem que assim o faz porque é outra vida. Até porque, nessa altura, o país da América do norte não é a potência económica que conhecemos hoje.

O mundo do turismo
É assim, com naturalidade que escolhe Londres. Começa por estudar. A intenção é aprofundar os conhecimentos da língua de Shakespeare. Sabe que, se assim não o fizer conta sempre com um handicap. É como estar no mar, saber nadar, mas não aperfeiçoar os estilos para alcançar as distâncias com mais facilidade.
Parte da Madeira com ligeiros conhecimentos de inglês. Na bagagem leva uma mão cheia de vontade de vencer e uma carta de recomendação do cônsul na Madeira para abrir as portas para de um emprego em “part-time”. Começa por um hotel. São os primeiros passos no mundo do turismo que jamais abandona.

“Créme de la créme”
Trabalha em Mayfair, no centro da cidade. É o que diz ser o “créme de la créme”. Ou seja, um lugar de eleição de Londres.
O primeiro trabalho na pequena unidade hoteleira traz inúmeros conhecimentos e contactos, nomeadamente no mundo do teatro e do cinema, de artistas que se contam entre os hóspedes. Grande parte dos clientes integram a English Speak Union, uma espécie de clube, com cerca de três milhões de sócios em todo o mundo. Dele fazem parte, por exemplo, a rainha de Inglaterra, Isabel II, e o príncipe Filipe.
Como denominador comum está o facto de quase sempre ser pessoas com dinheiro, muito educadas e com classe.

O Corezon
A razão de recorrerem à unidade onde trabalha Joe Camacho, como também é conhecido, prende-se com o facto de, muitas vezes, quererem ficar algum tempo em Londres. E, como o clube só facilita alojamento para uma semana, ficam nos hotéis nas cercanias. Um deles é o Corezon.
O hotel onde trabalha, tem 42 quartos standard e 2 suites.
Depois de trabalhar algum tempo na unidade, José Camacho passa a ser o principal responsável pelo seus destinos. É a alma da unidade.
Entretanto, o hotel é comprado por um grupo hoteleiro, e José Camacho parte para o número 14 do Hyde Park Edges (?????). É vizinho de Wiston Churchill, antigo primeiro-ministro e parlamentar na altura, vive ali perto, nos números 37 e 38.

O Wiston Close
Passa a tomar conta de um novo hotel: o Wiston Close.
O nome que escolhe ainda lhe traz alguns dissabores, sobretudo por parte de alguns vizinhos de nariz mais emproado. Entendem que não está certo utilizar um nome familiar ao antigo estadista e prémio Nobel. Mas José Camacho argumenta que não tem nada a ver com Wiston Churchill. Nem muito menos o antigo hóspede do Reid’s Palace, na Madeira se manifesta contra o nome que, no fundo, diz qualquer coisa como “perto de Wiston”.
Tempos depois, a unidade passa a ser uma espécie de hospedaria privada para raparigas de um colégio. Fica nesta situação durante um ano.
José Camacho só pode entrar no hotel com algumas restrições devido às características dos hóspedes.
Depois desse ano, regressa ao velho hotel. Têm de ser feitas algumas obras. Ali fica mais de 30 anos a explorar a unidade. A proprietária vive no Hampton Court Palace.
Durante a II guerra mundial a casa onde se encontra o hotel é utilizada por oficiais do exército.

O “boca-orelha”
O hotel caracteriza-se por ter seis pisos e 27 quartos (54 camas). É menor que o anterior mas Joe Camacho diz claramente que, para além de melhor, é suficiente para explorar com sucesso e grande dedicação, uma das duas grandes virtudes.
O trabalho que desenvolve na unidade é feito com grande afinco e sacrifício. Um sacrifício que não se queixa e até diz ser agradável.
Muitos portugueses, e alguns madeirenses, procuram a unidade quando visitam Londres nas viagens de férias ou de negócios.
Quanto à promoção, é feita seguindo a melhor receita do mundo, o famoso “boca-orelha”, que, no fundo, se traduz pelo reconhecimento de um cliente por um determinado produto e que, por isso mesmo, faz questão de transmitir aos amigos que não só gostou, neste caso, do hotel, como recomenda.
Na rua do Wiston Close vive gente importante, entre os quais se contam snobs, lordes e escritores como Edward Albee, que escreve e publica “Quem tem medo de Virgínia Wolf?”. Livro que, mais tarde, é imortalizado no cinema por Richard Burton e Elizabeth Taylor, com cenas filmadas na própria casa do Edward Albee, que decorrem durante o tempo em que Joe Camacho ali recebe os clientes no seu hotel.

Ligado à Madeira
Apesar de viver tantos anos em Londres, Joe Camacho não se desliga da sua Madeira. Recebe sempre os jornais diários da ilha.
Inclusivamente, durante este período, faz férias todos os anos na Madeira, duas a três vezes. Férias que são complementadas igualmente com viagens para outras partes do mundo.
Entretanto, depois de umas boas dezenas de anos em Inglaterra depara-se com a mãe doente. Com isso, a pequena unidade que erguera na Madeira precisa de maiores cuidados de outra pessoa que não a mãe. Sem outra solução, Joe Camacho decide deixar o seu histórico hotel de Inglaterra. Regressa à terra natal. Fica “parado” uns anos enquanto decorrem obras de ampliação.

O regresso
A Vila Camacho começa com 24 quartos e hoje oferece 49 quartos, sete dos quais num anexo.
Tem uma clientela diversificada, oriunda de vários mercados europeus. Muitos apreciam o ambiente familiar que encontram não só no empreendimento como no saber receber de Joe Camacho que fala sempre com todos os clientes. Chega a haver vezes que está um grupo à espera para que fale e mostre as suas plantas.
Inclusivamente um, Norton Litlle (cuja estatura não tem nada a ver com altura, com os seus cerca de dois metros), que já foi chefe da polícia em Glasgow, já veio 15 vezes à Madeira e para a sua unidade.
Outro veio 14 vezes. Trata-se de um cidadão americano que vive na Arábia Saudita. Sai do país durante a Operação Tempestade do Deserto, que opôs os norte-americanos e britânicos ao Iraque, por causa da sua invasão ao Kuwait.

Clientes que gostam
Curiosamente, é em Londres que encontra um madeirense no já mencionado English Speak Union. Fala que tem de ficar por ali algum tempo a descansar, em virtude da guerra poder prolongar-se. Do outro lado, ouve o conselho amigo para que venha à Madeira e que fique hospedado no Reid’s Palace, que é um bom hotel. Juntamente com esta recomendação segue o nome de Joe Camacho, para o caso de haver algum contra-tempo ou necessidade.
E assim acontece. Viaja até ao Reid’s e tudo corre bem até surgirem contratempos que não esperava encontrar na unidade como uma falta de água quente.
Insatisfeito socorre-se do segundo conselho e mete-se num táxi em direcção à Vila Camacho.
Ali fica não um dia, nem dois nem muito menos uma semana. Fica hospedado durante quatro meses.
E, como gosta, todos os anos vem de férias à Madeira, sempre para o mesmo lugar. Um número que duplica quando se reforma.
Joe Camacho não esquece o apoio que contou, no início do grande arranque, com a agência de viagens Blandy.
Joe Camacho acorda todos os dias bem cedo e orgulha-se de tudo fazer para bem receber os clientes.

À espera do “guia”
Desde que esteja na Madeira vai todos os dias ao hotel, embora reconheça que funciona bem, mesmo sem a sua presença. «Tenho a máxima confiança nos meus empregados.»
Sente saudades da sua Inglaterra, mas já passou a fase de apetite voraz pelo regresso a Londres, que conhece nos primeiros tempos em que se muda de armas e bagagens para a Madeira. Já lá vão 14 anos.
Entretanto, o hotel de Londres acaba uma vez que o neto da proprietária o vende para ser uma embaixada de um país de leste, onde se inclui residência para quem lá trabalha.
No domínio dos hobbys, tem uma preferência especial: a jardinagem. Uma jardinagem que enobrece a Vila Camacho, que bem pode orgulhar-se de ostentar um bonito jardim numa unidade tão pequena nos seus 1.650 metros quadrados.

Pensar em inglês
Gosta de ler. Não começa a dormir sem o fazer. Sobretudo livros ingleses. Uma opção que tem pelo hábito de muitos anos de vivência em Inglaterra e pelo facto de considerar mais fácil fazê-lo naquela língua que considera prática. Inclusivamente dá-se a curiosidade de pensar e sonhar em inglês. É automático, diz este gentilmen que vive 37 anos seguidos no emblemático mercado turístico para o destino Madeira.
Além dos livros, lê os jornais da Madeira todos os dias.
Sobre a sua experiência fora de portas recorda que demora cinco anos para se adaptar e outros 10 para se integrar.


2002-07-26
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