Jorge Figueira de Sousa

O homem dos livros


Jorge Figueira de Sousa começa cedo a lidar com o mundo dos livros.
E cedo surge igualmente o jeito para o negócio.
Ultrapassa a dimensão das empresas familiares e implementa o seu próprio caminho.
As apostas surgem acertadas.
Um dia decide criar a sua própria livraria: a Esperança. Recupera o nome da loja do avô.

Nasce no seio de uma família de comerciantes. A Livraria Esperança, de que hoje é proprietário, é fundada em 1886, pelo avô, Jacinto Figueira de Sousa, que tem uma tipografia e abre a livraria na Rua dos Ferreiros, muito mais abaixo do local onde hoje se encontra.
O avô já comercializa livros desde 1893.
Com a sua morte, o negócio passa para os filhos, entre os quais se encontra o pai de Jorge Figueira de Sousa.
Ainda a estudar na Escola Industrial e Comercial do Funchal, começa a ajudar o pai na livraria, numa altura em que não existem horários rígidos nas lojas.
É o tempo em que a mala de correio vem de barco com os jornais que o pai vende na livraria. Assim, é hábito, duas/três vezes por semana, ter a loja aberta para além do período normal: das 19 às 21 horas.
É precisamente nesta altura que passa a ajudar, que junta a outro apoio mais esporádico durante o dia. Aprende com a experiência.
Vende livros, jornais, papel de carta e envelopes.
Durante o período em que estuda nunca lhe passa pela cabeça ter outra profissão que não a de hoje: livreiro.
Quando tem 15 anos e meio, a estudar no terceiro ano (actual sétimo ano de escolaridade) do curso comercial, que acabaria em Junho e lhe daria o diploma — tal como o tinha o pai, e com muito orgulho — um dia, chega à loja e depara-se com o despedimento de um empregado.
O pai transmite-lhe que vai contratar outro para preencher o lugar.
A livraria e os estudos Jorge Figueira de Sousa pede ao pai para não fazer isso. Realça que termina as aulas em Junho. E, nessa altura, pode entrar na empresa a tempo inteiro. Não obstante se oferecer, apercebe-se de que o pai já pensara nisso. Apenas espera que o filho lho peça.
O pai diz que está tudo bem. Mas coloca uma condição: não deixa de estudar, não falta às aulas e ajuda sempre que pode.
Cumpre a promessa de não faltar às aulas. Mas passa a estudar menos. A comissão de 10% sobre as vendas é apelativa. Chega ao fim das aulas, perde o ano. Não obstante, considera que “Deus escreve direito por linhas tortas”.
Quando chega a altura de cumprir o serviço militar obrigatório, com o segundo ano completo, é soldado raso. Fica livre. Se tem o terceiro ano, é incorporado como oficial miliciano e vai para África.
Enquanto trabalha na loja, começa a fazer os seus próprios negócios. Com a licença do pai, vende selos de colecção e álbuns para filatelia.
Começa a crescer. A loja começa a ser muito pequena para si. Tem ideias novas. Mas os tios não encaram bem mudanças. A publicidade nos bilhetes
A dada altura, no tempo do pai, surge um contratempo com encomendas para as companhias de autocarros. Com o volume de encomendas, decide investir em equipamentos mais adequados, nomeadamente a nível da numeração.
Existem 11 companhias em actividade.
Mas as empresas deixam de encomendar mais bilhetes.
Jorge Figueira de Sousa tem a ideia de fazer publicidade no verso dos bilhetes de autocarros. Concretiza-a e passa a oferecer os bilhetes às companhias, que ficam radiantes. Cobra dos anúncios. Dá para pagar à tipografia e ainda ganha dinheiro.

Vendas a prestações

Durante um período, a Livraria Esperança muda o nome para Figueira, como também é conhecida pelo nome familiar.
Em 1938, a loja onde surge a Casa Figueira, na Rua dos Ferreiros, fica vaga. O pai muda para lá a Casa Figueira e a Tipografia Esperança.
A meados dos anos 50 entra num outro segmento de negócios, que permite a comercialização às prestações.
Em 1953, vai, pela primeira vez, a Lisboa, para preparar este passo.
Entra a sério nas vendas dos electrodomésticos. Comercializa rádios, frigoríficos, máquinas de costura e outros, e igualmente relógios suíços. Ainda hoje tem um deles, automático, a trabalhar no pulso.

O espaço da livraria

Durante o dia, ainda vai durante algumas horas às empresas do pai.
Mas, aos poucos, começa a afastar-se dos negócios de família. O negócio começa a prosperar.
Há um director de um banco na Madeira que admira a ousadia controlada de Jorge Figueira de Sousa.
Nunca conhece qualquer problema com os seus clientes. Por esse tempo tem já alguns espaços alugados pela cidade. Surge a oportunidade de alugar o edifício onde hoje está a Livraria Esperança. Pertence à Aliança Madeirense. O dr. Araújo é amigo da família e antigo professor. Pede 3.500$00 por mês de aluguer.
Jorge Figueira de Sousa traça uma estratégia para minorar esse esforço. Tem receptividade. Começa a pagar 2.500$00. Depois aumenta para 3.000$00 dentro de um ano e os tais 3.500$00 dentro de dois. Negócio fechado. Concentra os seus negócios no novo espaço em 1959. Em 1960 falece o pai.

O Porto Moniz

Durante algum tempo explora um restaurante no Porto Moniz. Trata-se da pensão restaurante “Lar da Baía”, adaptada de uma casa que compra. É uma experiência de que gosta muito.
A aposta nesta vila do Norte da ilha da Madeira começa mais cedo, com o bar das piscinas naturais: o “Bar da Piscina”. Ali recebe muitas pessoas ilustres. Lembra-se do governador Camacho de Freitas e do presidente da Junta, o coronel Homem Costa, que lá vão e com convidados.
A certa altura, leva o dr. Moreira Baptista e o director-geral do Turismo, o eng. Roquete. Pedem-lhe que lhes sirva o que é habitual tipo de cozinha familiar. No final, dizem-lhe ter sido a melhor refeição que tiveram fora do Funchal.

Deixa os negócios familiares

Algumas divergências familiares fazem com que venda a sua parte nas empresas familiares. Estamos em 1968. Tem já em mente fazer a sua própria livraria. Está ciente de que sozinho dificilmente consegue. Acaba por concretizar a ideia em Abril de 1973. Nessa altura, enfrenta dificuldades no negócio das prestações.
Entende que é hora de arrancar com a livraria. Recupera o nome de Livraria Esperança, do avô, abandonado desde 1914.
A pouco e pouco desliga-se dos outros negócios, até se dedicar a 100% à livraria.
Entretanto, surge a oportunidade de ampliar o espaço. Compra um palácio, do outro lado da Rua dos Ferreiros, construído em 1700. Ali cria a sucursal da livraria em 1996.
Dá-se o 25 de Abril. Surgem problemas com as comissões de trabalhadores nas empresas da família. Passam um mau bocado.

A maior livraria

Quanto à sua livraria, hoje não esconde a sua satisfação por ali ter uma das três ou quatro maiores livrarias do Mundo. Tem 1.200 m2 de área com 85 mil livros. Alguns são autênticas relíquias. A maior livraria está em Nova Iorque.
Lê alguns, uma gota de água naquela imensidão que nunca teria tempo para ler. Durante anos lê antes de dormir. Mas perde o costume aos poucos.
Jorge Figueira de Sousa diz que consegue esta dimensão com muito trabalho e carinho. Reconhece que tem tido a compreensão de muitos editores e distribuidores.
Hoje tem sempre um exemplar dos que são dados à estampa.
Lamenta que tenham acabado as visitas das escolas à livraria, que em muito incentivam o gosto perdido pela leitura.

Livros pela Internet

Mais recentemente lança o projecto para a comercialização de todos os seus livros através da Internet para responder ao desejo de pessoas que não dispõem de muito tempo para se dirigir às livrarias.
Utiliza os ficheiros informáticos de que dispõe para o próprio serviço da livraria. Um ficheiro cruzado muito elogiado por conhecedores.
Jorge Figueira de Sousa não tem grandes “hobbies”. Até certa altura é filatelista. Hoje guarda selos.
Além disso, está a colocar por ordem os postais que traz das viagens pelo Mundo, que faz com a esposa, natural do continente.
Está a colocá-los em álbuns. E a matar saudades.

A Fundação

Trabalham no universo da Livraria cerca de 20 pessoas. Há alguns anos decide criar a Fundação Livraria Esperança, considerada de utilidade pública. O seu fim caritativo é a oferta de livros a crianças da Madeira e do Porto Santo, obtidos com metade dos lucros a distribuir na livraria.
Na prática, as cerca de duas dezenas de pessoas que trabalham consigo não são empregados.
Antes associados da fundação, com participação nos lucros.
A criação da fundação permite a Jorge Figueira de Sousa dar continuidade
à livraria.
Jorge Figueira de Sousa mora sobre a livraria. Por vezes passa os fins-de-semana na casa que tem no
Monte.
Reconhece as potencialidades dos computadores e da Internet, que utiliza como ferramentas.

B. I.

Nome: Jorge Apresentação Gomes
Figueira de Sousa
Data de Nascimento: 1931-11-21 (?)
Naturalidade: Sé, Funchal
Estado Civil: casado

26 DE SETEMBRO DE 2003
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