Jorge Gomes da Silva

Uma vida a fotografar

Jorge Gomes da Silva começa cedo a trabalhar no mundo da fotografia.
Um chumbo na escola faz o pai convidá-lo a entrar no negócio familiar que vem já do bisavô. Dá todos os passos na Fotografia Vicentes até se reformar.


A chamam-no Vicente. Na realidade, apesar de estar ligado familiarmente aos “Vicentes”, tem como nome de baptismo Jorge Bettencourt Gomes da Silva.
Na sua família há a tradição de colocar o nome Vicente ao filho primogénito.
Uma tradição que vem do tempo do bisavô, que funda a casa de fotografia no Funchal. Chama-se Vicente Gomes da Silva. O avô chama-se Vicente Gomes da Silva Júnior e o pai Vicente Anjo Gomes da Silva, e, finalmente, o irmão Vicente
Bettencourt Gomes da Silva.
O filho também recebe o nome de família: chama-se Vicente Gomes da
Silva. É jornalista e deputado na Assembleia da República.
Jorge Gomes da Silva estuda despreocupadamente, despreocupadamente, no liceu. Não tem sonhos de ser isto ou aquilo quando for crescido. Quer apenas viver o dia-a-dia.
Mas um dia tudo muda. Chega ao fim do terceiro ano do liceu, onde hoje está o museu de Arte Sacra. O recreio é no espaço onde se encontra a Praça do Município.

O primeiro emprego

Não consegue transitar de ano. Chumba com um nove. O irmão dá força para que repita o ano. O pai prefere que ajude na Fotografia Vicentes, fundada em 1846, pelo bisavô, na Rua da Carreira, em vez de meter mais gente.
Assim, a meio da juventude, começa a trabalhar, a ajudar o pai na loja. Primeiro aprende a retocar negativos de vidros. Fica por ali cerca de um ano. Queima a vista a fazer este trabalho minucioso. Alguns negativos, poucos, partem-se. Mas, como tiram em duplicado, a imagem está assegurada.
Até então não tem qualquer contacto com a fotografia, apesar de crescer numa família ligada a esta arte algumas gerações.
O irmão, Vicente, retoca com grande rapidez, uma média de quatro enquanto Jorge o faz num. O pai já tem alguma dificuldade, devido à idade.
Jorge Gomes da Silva retoca negativos de bilhete de identidade, de bilhete-postal e de outros formatos.
Mais tarde passa a trabalhar no quarto escuro, a revelar, a imprimir e a fixar.
Trabalham na loja seis pessoas.
Posteriormente, depois de dominar estas duas técnicas, evolui.
Começa a aprender a pegar na máquina fotográfica grande do estúdio, construída pelas mãos hábeis do bisavô. Só a lente vem de Inglaterra.
A máquina de “ateliê” é basicamente feita em madeira, muito prática e revolucionária para uma época e uma região onde as tecnologias chegam tarde.
A juntar a esta arte de bem-fazer, constrói uma cadeira com as costas onde existe um forro em forma oval.
Uma vez tirada esta parte, a pessoa coloca-se naquele espaço e fica a cara da pessoa, com um formato diferente e já com moldura.

Dar vida às peças

Passados alguns anos desde que deixa a fotografia, Jorge Gomes da Silva tem ocasião de mostrar como funcionam as duas peças. Maneja-as com mestria e com a precisão de outros tempos. Ainda conhece cada pormenor da máquina fotográfica maior que um homem. Aproxima e foca com precisão. Mostra os dispositivos de aberturas. Vê-se que a máquina não tem segredos para si.
O experiente fotógrafo leva-nos a uma autêntica visita guiada ao
Museu Fotografia Vicentes, que mostra os segredos de uma das mais importantes casas de fotografia madeirenses, hoje desactivada.
Dá vida a cada peça que toca e enche de luz os quartos frios que mostram as diferentes fases do processo da fotografia desde que é tirada até ser entregue ao cliente.
As fotografias nas paredes e nos álbuns ganham notoriedade assim que dá nome a cada pessoa retratada.
Até parece que se movimentam, pela forma como as descreve. Tem uma memória de elefante.
Mais tarde, o bisavô manda vir uma máquina para as fotografias a fazer no exterior.
Estamos numa altura em que não existem as facilidades de hoje. As pessoas do campo que precisam de fotografias têm de se deslocar ao Funchal. É quase uma tradição.
Apesar de ser uma técnica com uma expansão menor do que a de hoje, Jorge Gomes da Silva admite que fazer fotografia no seu tempo talvez seja mais em conta que hoje.

Fotografar de novo

Jorge Gomes da Silva faz trabalhos de interior, no estúdio, onde os muitos cenários transportam os fotografados para as mais diversas paragens. Mas também faz fotografia no exterior, de momentos solenes, de casamentos e baptizados e de realidades que permitem transportar vivências passadas até aos nossos dias.
Jorge Gomes da Silva lembra-se do dia em que faz um casamento.
Faz tudo conforme mandam as regras. Ou quase tudo. Já com as horas adiantadas dá conta que a máquina não tem rolo. A solução é repetir o irrepetível. Fala com o padre e lá todos fazem de conta. Só para posar para a posteridade.
Recorda que, a dada altura, a casa tem 380 mil negativos registados, com toda a informação necessária sobre o cliente.
Desde cedo que gosta de desporto.
Por isso, pratica natação e “table tennis”, como chama. O que, traduzido, significa ténis-de-mesa ou “pingue-pongue”.

Pouca fotografia

Também gosta de ler, livros e jornais. Noutros tempos vai muito às salas de cinema. O domingo é passado a ver as novidades da sétima arte. Não viaja muito. Vai até ao Porto Santo e às Desertas. Acompanha o dr. Américo Durão, com as suas lanchas, na altura em que vai para estes lugares caçar, juntamente com o irmão. As máquinas fotográficas ficam em casa. Mais tarde alarga a distância e passa a ir mais longe.
Tem máquinas fotográficas em casa, na casa onde vive junto ao museu com o nome de família. Mas diz que não tem vontade de fotografar.
Ainda chega a levar a Lisboa as máquinas algumas vezes. Mas, como a filha tem câmaras fotográficas, nem chega a usar as suas.
Hoje, algumas vezes, vai ao museu matar saudades.
Diz que, se tivesse oportunidade de começar a vida de novo, não sabe se gostaria de voltar a fazer o mesmo. Mas, como nunca teve sonhos de vida, admite que, mediante as condicionantes da altura, talvez tivesse de voltar a entrar no mundo da fotografia.

O sócio número 1

Jorge Silva é hoje o sócio número um do Club Sport Marítimo.
Vê os jogos todos quando a equipa joga em casa. Tem um lugar reservado para si na tribuna.
Faz-se sócio na altura em que o irmão é director do clube. Já lá vão muitos anos. Algum tempo depois de se fazer sócio vê o seu clube ser campeão de Portugal. É uma altura em que os jogadores transpiram a camisola.

BI


Nome: Jorge Bettencourt Gomes da
Silva
Data de Nascimento: 6-10-1913
Naturalidade: Sé, Funchal, Madeira
Estado Civil: Casado
Filhos: 3
B. I.

2003-04-11
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