João Silvério Cayres


O antiquário que queria ser actor


Tem pena de ter visto passar pelas suas mãos valiosíssimas peças de arte. Recorda, por exemplo, quadros antigos que vende em São Miguel, aquando da exposição feita no Museu de Santo André.
 João Silvério Cayres diz que a sua vida profissional é o resultado de acontecimentos. Fala com orgulho do caminho percorrido mas admite que, se pudesse voltar atrás, enveredava pelo teatro e pela televisão.


Não esconde que o teatro é a sua paixão. Fez várias peças quando era criança e jovem. Mas um conselho do padrinho de baptismo, o escritor e dramaturgo, major Reis Gomes, demove-o. Chama à atenção para um percurso de dificuldades se envereda pelo teatro em Portugal.
O projecto fica pelo caminho. O gosto não. Continua a adorar ver teatro. Teve oportunidade de ver a estreia nacional d’ A Casa do Lago, que ocorreu recentemente no Funchal.
Estuda no Colégio Júlio Diniz. É um dos primeiros alunos de Bernardete Jardim. A sua boa voz faz com que seja o chefe.
É escuteiro no agrupamento 216, grupo 88, no Socorro.

O 1.º emprego

O primeiro emprego chega. Começa a trabalhar na casa de leilões de Luís Tomás Cunha, junto à Sé do Funchal. Surge o gosto por antiguidades.
Nessa altura, vive na Madeira Leite Pinto, irmão de um antigo ministro da Educação, que conhece e gosta muito de antiguidades. É amigo de João Cayres. Pede que procure peças para as comprar. «Foi assim que tomei o gosto e fui aprendendo.»
Conhece Jan Wetzler, um refugiado da então Checoslováquia, que imigra para a Madeira no início da segunda guerra mundial, onde põe de pé, inicialmente, uma casa de bordados. Tem a particularidade de ser um grande conhecedor e coleccionador de antiguidades e obras de arte. O encontro entre ambos, principalmente nas salas de leilões, desperta em Wetzler o jovem promissor que convida para as Galerias da Madeira, uma loja de antiguidades que abre. Tem oportunidade de ler muitos livros. E estuda-os.

Pago para ficar

O serviço militar obrigatório está próximo e João Silvério Cayres não vê com muito bons olhos o novo emprego, pois teria de interrompê-lo. O checoslovaco não desiste e cativa-o. Mesmo quando faz o curso de milicianos em Tavira, no Algarve, Wetzler continua a mandar parte do ordenado para segurá-lo.
Os tempos livres da tropa são utilizados para ampliar os conhecimentos. Estuda a arte com mais afinco e visita assiduamente igrejas. Muitas estão fechadas ao público. Mas consegue que abram as portas. Os museus de Lisboa também não escapam. Especialmente os de arte antiga.
No íntimo de João Cayres está a criação do seu próprio negócio.
O apoio que o empresário prestara move-o a agradecer. Nos antiquários de Lisboa compra peças a gosto dos madeirenses. Manda-os para Jan Wetzler.

Viagem por Itália

Acaba por vir trabalhar com ele. Fica pouco tempo. Entre 1946 e 1948.
Não satisfeito com os conhecimentos adquiridos até então, decide ampliá-los.
Estamos em 1948. Pede licença de férias a Wetzler. Parte em viagem de estudo para Itália. Uma Itália onde ainda encontra sinais da segunda guerra mundial, como a dificuldade de transporte. Lá fica cerca de um mês. Viaja de comboio e autocarro. Vê o mais que pode e conversa com os entendidos. As principais cidades com riquezas artísticas estão na sua rota. Roma, Génova, Assis e Florença são as eleitas. Sobre esta última diz mesmo que se trata da cidade que mais o emociona, onde «a arte palpita nas pedras dos templos, nas pedras da calçada que pisamos.» Outra situação que o marca é a imagem de progresso e modernização que o país procura empreender. Um dos exemplos é o de motorizarem quase tudo.
Dois anos mais tarde, em Janeiro, volta a viajar. Desta vez, além de Itália, vai a Portugal continental, Espanha e Suíça. Objectivo: ver mais museus e lugares artísticos. Acompanha-o o padre Pita Ferreira, um amigo íntimo que considera um grande homem de sensibilidade e vasta cultura.

Loja própria

Já em Lisboa, compra um lote de antiguidades que viria a ser a base do recheio da sua primeira loja, que abre a 29 de Março de 1950, na Rua Dr. Fernão de Ornelas. Peças de Londres complementam a oferta. Oferece já a qualidade que transporta até aos dias de hoje.
O crescimento da oferta dá-se com o passar do tempo, com as viagens a Londres onde compra pinturas, casquinhas, tapetes persas e porcelana da China.
Por essa altura, João Cayres é convidado e fala de antiguidades na BBC. A sua imagem fica perpetuada quando, nesse ano, os postais de Boas Festas enviados para a Madeira pela estação de rádio britânica têm a fotografia do madeirense a falar aos microfones.
Eis-nos em 1951. Novembro. João Cayres faz a sua primeira exposição de pintura antiga. São cerca de 70 telas e tábuas à mostra no Museu de Santo André, em Ponta Delgada, Açores.

Salto para Lisboa

A loja do Funchal começa a crescer. Fideliza clientes como o dr. Frederico de Freitas, cujas peças de arte antiga compradas fazem hoje parte do museu com o seu nome.
Não obstante, João Cayres começa a sentir que a Madeira é limitada. Quer crescer. Lisboa oferece a dimensão que procura. Leva antiguidades para a capital. Conta com o apoio de um conhecido antiquário de Lisboa, já falecido. Costa Guerra dá-lo a conhecer à clientela com posses. A alta finança e aristocracia portuguesa começa a fazer parte dos seus percursos. Conhece pessoas como o rei Humberto de Itália, o duque de Palmela, o comandante Ernesto Viana, que compra dezenas e dezenas de quadros, e muitos outros, que o recebem em suas casas.

Entrada livre

Recorda que, naquele tempo, as antiguidades não pagavam direitos nenhuns. A Alfândega certificava-se da autenticidade das peças e, depois, entravam gratuitamente. Era de lei e compreende-se: vinha enriquecer o património artístico regional e nacional.
Mais tarde, no outro lado da rua, e por sugestão da falecida primeira mulher, implanta a Decorama, uma loja de decorações, onde hoje se encontra a Cayres.
É um edifício acabado de construir que os proprietários querem enriquecer com a presença de tão visível inquilino. Embora tivesse ofertas mais vantajosas, Graham Blandy e Vasco Pereira fazem questão que lhe seja entregue o rés-do-chão.
Por essa altura, João Cayres começa a fazer alguns móveis de linhas modernas. No entanto, a formação estética e o gosto movem-no a dedicar-se à reprodução rigorosa de mobiliário antigo, com particular relevância para estilos clássicos ingleses.

Cresce em Abril

Dá-se o 25 de Abril de 1974. O andar superior do mesmo prédio fica devoluto. É proposto a João Cayres que arrende, o que vem a acontecer, apesar de considerar que a altura é de grandes incertezas.
É ainda no ano da revolução de Abril que abre uma loja em Lisboa. Conforme sublinha é de louco fazê-lo em pleno Gonçalvismo. Mas, como realça, sempre foi corajoso. Tinha a loja arrendada desde antes de Abril e as antiguidades em Lisboa. A saída é forçosamente para a frente.
Na Madeira a actividade industrial prospera. No entanto, a forma artesanal como trabalha, na pequena fábrica da Rua de Santa Maria, nem chega para satisfazer as encomendas da própria loja. Pensa em construir uma nova fábrica. Tal só acontece anos depois devido às dificuldades que encontra. Não só por não haver tradição fabril na ilha como também por não encontrar espaços adequados.

Fábrica maior

Consegue construir a fábrica e exporta parte da produção. Instala novas tecnologias, mas continua a dar um cunho essencialmente artesanal, dado que todas as peças têm acabamentos manuais.
João Cayres tem a preocupação de preparar as novas gerações de operários especializados, para não perder a tradição. Que vem de longe. Actualmente tem em mente reduzir o espaço da fábrica assim como o número de pessoas. Além disso procura um director com nova força.
Não tem dúvidas em afirmar que fez e continua a executar os melhores móveis em Portugal. E dos melhores do Mundo, acrescenta. As cópias são iguais aos móveis ingleses dos séculos XVII e XVIII.
A maior parte da produção actual é para a Madeira e para o continente, onde existem lojas que só vendem móveis Cayres. Já exportou ou exporta para a África do Sul, Alemanha, Bélgica, o principal mercado estrangeiro, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, Holanda, Inglaterra, Japão, Noruega, Suécia e Venezuela, entre outros países. Não obstante, salienta que vende tão bem no continente português que não tem necessidade de exportações para o estrangeiro.
Em 1984 abre em Lisboa uma loja de decorações e mobiliário. A intenção é usufruir de mais comercialização e de marcar uma presença que projecte com mais alcance o nome e a marca dos seus móveis. A anterior loja já a havia vendido.

Vida associativa

No seu percurso profissional consta a actividade associativa.
Passa pela Assicom – Associação da Indústria e da Construção da Madeira. É ali que, então presidente da assembleia-geral, faz parte da organização da primeira feira de actividades económicas. Foi no Campo Almirante Reis. Consegue trazer um ministro à Madeira na inauguração da feira. A necessidade de um espaço adequado para a sua realização é manifestada por si na altura. Curiosamente, é o filho, o arquitecto João Francisco Cayres, que projecta o CIFEC, onde hoje decorre a feira da Assicom.
Posteriormente passa para a ACIF-CCIM – Associação Comercial e Industrial do Funchal – Câmara de Comércio e Indústria da Madeira. Durante muitos anos é presidente do sector do Comércio.

Cônsul

A juntar à sua actividade, é cônsul da República Dominicana há cerca de 30 anos. Uma função para a qual o seu antigo colega de escola Jorge Veiga França o convida, quando surge a oportunidade de ser cônsul da Áustria. Dá pouco trabalho. Apenas alguns vistos para quem lá vai visitar. Na Madeira apenas há uma senhora, casada. Mesmo assim, já lhe trouxe algumas graças como aconteceu há anos em que estava naquele país e enfrentava dificuldade em conseguir lugar no avião. O facto de ser cônsul resolveu a situação e regressa a Portugal.
O seu dia-a-dia é repartido entre a fábrica e a loja, na Fernão de Ornelas.
É distinguido como comendador e gosta de viajar. Não dispensa umas férias todos os anos. O ano passado fez um cruzeiro no Alasca.
O seu grande hobby é a jardinagem e ler. Lê o Jornal da Madeira em casa e o Diário de Notícias na loja.
Tem pena de ter visto passar pelas suas mãos valiosíssimas peças de arte. Recorda, por exemplo, quadros antigos que vende em São Miguel, aquando da exposição feita no Museu de Santo André. Um deles é o quadro grande de São Sebastião, que está na Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Hoje diz que já não há o gosto pelas antiguidades na Madeira. Desempenha mais a função de avaliador do que antiquário. 


2002-03-15
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