João Borges


Mr. Madeira: a vida a promover


“Quando a alguém se deve tanto a palavra agradecer deveria ser espanto (…)”. Assim começa o poema gravado na placa oferecida a João Borges na noite de homenagem por toda a actividade turística em prol do destino Madeira.
É exigente por natureza. E, no caso do turismo, defende que a qualidade começa por passar pelas exigências.


João Borges nasce a 26 de Setembro de 1922 no Monte, na casa dos pais, a Vila Sara, junto à habitação do avô Manuel Gonçalves, conhecido por comendador. Estava intimamente ligados aos caminhos-de-ferro de então e, por isso, construiu uma casa no Monte, onde viviam as pessoas de bem.
Nessa altura, a grande atracção era desembarcar de navio de cruzeiros no porto, apanhar o carro de bois e seguir até ao Pombal onde a carruagem esperava para subir pacientemente a íngreme linha até ao Monte e ao Terreiro da Luta. Almoçavam no Monte espada com molho branco e alcaparras ou frango dourado preparado por uma cozinheira suíça do avô.

Viver entre turistas

Depois regressavam ao Funchal de carros de cestos, com as sombrinhas sempre abertas a dificultarem a visão dos carreireiros. A casa dos pais dá para o lado do comboio que sobe e para os carros de cestos que descem, o que permite a João Borges guardar os cheiros dos dois transportes.
Deste modo, a infância de João Borges é passada já entre turistas.
Mas a sua vida começa com um problema de saúde. Asmático, encontra no mar a panaceia para os seus males. As idas às praias do Julinho e do Garcês, junto ao cais, onde hoje está a marina, assim como à do Lido, afastam as maleitas.
Não obstante, considera que a asma pode ficar a dever-se a umas almofadas feitas de penas de ganso. Um dos indicadores surge recentemente quando visita um amigo, que também tem almofadas com o mesmo conteúdo, e volta a enfrentar os sintomas da asma há muito ausentes da sua vida.

Escola prejudicada

Com tudo isto, a escola fica prejudicada pelas ausências ao Colégio alemão. Praticamente não faz escola. Diz que chega aos 10 anos analfabeto. Mas uma professora tenebrosa que lhe enche as mãos de “bolos” resolve o problema e prepara João Borges para fazer o exame de 4ª classe. Passa com distinção.
Vai para o liceu. Os tempos de estudante são de tortura. Acaba o antigo sétimo ano em Lisboa, no Liceu Camões. Regressa ao Funchal.
Estamos em 1942/43. A tropa atravessa o seu caminho. Faz o serviço militar em Évora, onde chega em Agosto de 1943.
Trabalha com um francês em trabalhos de precisão.
Em 1947 abre uma ourivesaria: a Big Ben. Fica na recém-aberta Avenida Zarco. Mas negócios não são o seu forte.

Moby Dick

O escape da sua vida é o mar. O mar que lhe abre as portas do mundo.
João Borges é um dos primeiros madeirenses a utilizar equipamento submarino. Conhece o fundo mar como os seus dedos.
Em 1953 vence o primeiro campeonato de caça submarina na Madeira. Nesse mesmo ano colabora com o consagrado realizador de cinema John Houston no filme “Moby Dick”. Parte das filmagens decorre nos mares da ilha e João Borges faz de baleia branca. Muitas peripécias são passadas com recurso a tubarões a vestirem a pele de baleia. A solução passa por ser o próprio João Borges a vestir a pele da baleia branca para fazer a cena final do filme. O resto do filme, recorrem a uma baleia artificial.

Calypso

Três anos depois consegue atingir em mergulho livre a profundidade recorde de 32 metros. É ainda em 1956 que colabora com o comandante Jacques Ives Cousteau
que, com o seu famoso “Calypso”, percorre todos os lugares navegáveis do mundo. O objectivo do encontro com o famoso pesquisador francês é a tentativa de fotografar os peixes-espada no seu habitat. Chega a fazer mergulhos de cinco mil metros, mas até hoje ninguém conseguiu fotografar o famoso peixe no seu ambiente natural. Nem tão-pouco nunca alguém viu um espada bebé.
Em 1966 acompanha a missão do batiscafo francês “Archimedes” nos mares da Madeira com o comandante Huot.
Realiza trabalhos submarinos a 22 metros na Ponta de São Lourenço para recuperar o pesqueiro afundado “D. Carlos”, de 37 toneladas.
É um dos organizadores da “1ª regata Lisboa-Funchal” e do campeonato do mundo da “Moths”. É igualmente um dos primeiros sócios do Clube Naval do Funchal, de onde se torna comodoro a partir de 1970. Actualmente é sócio honorário.
É neste clube que começa a empreender acções de relações públicas aos ilustres velejadores que passam pela ilha e fundeiam no interior do porto, junto a São Lázaro. Uma situação que iria levá-lo ao mundo do turismo.

Entra no turismo

É convidado a entrar no Rotary Clube do Funchal. Vai pelas mãos de Tomás Pita da Silva e Joaquim Ferraz. São eles os seus padrinhos. João Borges é quem passa a fazer as apresentações aos companheiros rotários visitantes.
O seu percurso não passa despercebido e é convidado a entrar no turismo. É o primeiro elemento a ser convidado mas deixa a resposta pendente dos restantes integrantes. Dá a sugestão de Ribeiro de Andrade para presidente. É aceite, tal como acontece com António Câmara.
Entra na Delegação de Turismo da Madeira em 1969. Faz parte da equipa directiva onde constam os nomes de Ribeiro de Andrade e António Manuel Bettencourt da Câmara. Curiosamente, os três são casados com estrangeiras.

Inovar na promoção

Começa a estudar o turismo da Madeira.
A actividade de João Borges é, desde o início, a promoção e as relações públicas. É mesmo o primeiro promotor oficial do turismo na Madeira. Não dispõe de meios nem material de promoção.
A primeira acção é em Espanha.
Depois, consegue atrair a atenção do mercado inglês com a apresentação do tema “Madeira – Berço do turismo internacional” na sua primeira acção promocional em Londres, em Abril de 1971. Compra o livro em Inglaterra “Turismo: Bênção ou praga”. Os seus horizontes e conhecimentos alargam-se. O autor do livro fala do início do turismo nos tempos dos jogos olímpicos de Atenas.
Em 1973, perante dirigentes do turismo português, faz uma apresentação a agentes de viagens em Barcelona, com o tema “Madeira, a mais antiga tradição do turismo português”.
A experiência de “inventar” formas de promover levam João Borges a criar o audiovisual “Madeira, The oldest tradition in tourism”. Caracteriza-se por projecções de quadros, gravuras e fotografias. Mostra as diferentes fases da história do turismo madeirense. É este instrumento que o acompanha durante cerca de 20 anos em todos os mercados onde promoveu a Madeira, em congressos, convenções e seminários de turismo.
Naquele mesmo ano de 1973 está presente numa série de iniciativas internacionais.

O 25 de Abril

A 20 de Julho de 1981 é nomeado director dos serviços de promoção, relações públicas e publicidade da Direcção Regional do Turismo.
Neste ano é distinguido pela Associação Internacional de Relações Públicas (Experts de Turismo) com o Golden Helm.
A 25 de Abril de 1974 é encarregado pelo governador Ferrajota Rochete de ir pôr um membro da família austríaca ao aeroporto. Bem cedo. O voo era às sete horas. Mas depressa fica a saber que não haveria viagem em virtude de o aeroporto de Lisboa, tomado pelas tropas de Abril, estar encerrado. Por isso era tempo de inventar uma desculpa ao arquiduque de Áustria. Diz que estava nevoeiro na capital o que impossibilita a operação. Contudo, alguém da comitiva pergunta se não seria antes um nevoeiro político. Mais tarde, de novo de regresso ao Savoy, o arquiduque desabafa com João Borges e diz que chegou o fim dos tubarões.

Intérprete

No dia seguinte é nomeado pelo Governo Militar da Madeira, já na dependência da Junta de Salvação Nacional, para receber no Aeroporto de Santa Catarina Américo Thomaz, Marcelo Caetano e os dois ex-ministros Silva Cunha e Moreira Batista.
No dia seguinte é nomeado membro do “Gabinete de Informação”, a funcionar no Palácio de São Lourenço, no Funchal. Inicialmente exerce funções de intérprete junto dos inúmeros jornalistas estrangeiros que ali chegam.
João Borges é a pessoa de confiança do novo governo para assessorar a primeira conferência de imprensa e as reuniões várias onde foram tomadas decisões em relação a variadíssimos assuntos pontuais como também na nomeação dos elementos da primeira Junta de Planeamento e Junta Governativa.

Director do turismo

Em 10 de Janeiro de 1984 é nomeado director regional do Turismo da Madeira. Um cargo que ocupa até à sua aposentação.
Três anos mais tarde recebe no XIII Congresso da APAVT em Marraqueche a Medalha de Mérito Turístico.
A 18 de Maio de 1986 em cerimónia comemorativa dos dois séculos de turismo madeirense é galardoado pelo Governo Regional com a Medalha de Ouro de Mérito Turístico.
Ao aposentar-se é homenageado pelos directores dos centros de turismo de Portugal, reunidos no Funchal. Nessa altura recebe uma placa de prata com a seguinte inscrição: “Ao ilustre embaixador da Madeira em todo o mundo, João Gonçalves Borges, como homenagem pelos relevantes serviços prestados ao turismo português”.
A 10 de Junho de 1993 o Presidente da República, Mário Soares, confere-lhe a Ordem de Mérito, com o grau de Comendador. Curiosamente João Borges passa a usar uma expressão junto ao nome idêntica à do seu avô comendador Manuel Gonçalves.
Uma nota final para sublinhar que João Borges tem a particularidade de considerar, desde o início da sua actividade turística, que a qualidade dos equipamentos, dos serviços, da paisagem e do ambiente, juntamente com a afabilidade do seu povo, constituem os bens mais precisosos do turismo madeirense. A sua defesa e preservação aparecem sempre nas entrevistas que concede, nos inúmeros artigos que escreveu, assim como nas variadíssimas palestras que profere. 
2002-03-22

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