Horácio Roque


O gosto de investir do “senhor Banif”

Horácio Roque deixa Portugal muito cedo. Segue para Luanda, onde bem cedo começa a mostrar a sua garra de empreendedor. Pelo caminho conhece a Madeira. A independência de Angola faz procurar outro local para investir.
A África do Sul é o escolhido. Ali conhece o advogado Semião Mendes que o cativa a voltar à Madeira. Aqui começa a investir no imobiliário, na Caixa (actual Banif)...


Horácio Roque sai de Portugal em fins de 1958. Destino: Angola. A caminho, em Dezembro, passa pela Madeira. O barco fica ao largo. Isso não o impede de desembarcar. Anda nos carrinhos do Monte.
Fica com a imagem de uma ilha bonita. Lembra Oleiros, onde nasce, perto de Castelo Branco, no continente.
Chega a Angola em Janeiro de 1959.
Com pouco dinheiro no bolso, inicia uma dupla actividade: trabalhar e estudar.
Aos 18 anos começa a vida empresarial com mais dois amigos. Abre o restaurante e cervejaria “Munique”, em Luanda. Um investimento que mantém durante dois anos.
Está sempre atento a novas oportunidades de negócio.
Desempenha várias actividades. É delegado de propaganda médica, que faz em “part-time”.
Abre um colégio com o antigo professor de Matemática. Chama-se Colégio Viriato.
Dois anos depois, abre, juntamente com o sócio docente, um outro colégio, de maiores dimensões, para 1.500 alunos.
Funciona de manhã, tarde e noite. Chama-se Colégio Universal.
Mais tarde negocia com o sócio, que fica com o “Viriato”. Horácio Roque fica sozinho com o “Universal”. Diz que a actividade do ensino privado em Angola é muito rentável.
Paralelamente a esta actividade, tem uma empresa de imobiliária e uma de representações e importações, que trabalha com produtos de cosmética.
Em 1965 estala a guerra em Angola. Horácio Roque consegue ficar isento do serviço militar. Isso dá-lhe oportunidade de continuar a trabalhar.
Os seus investimentos crescem. Abre mais dois colégios e uma escola de cursos práticos: o Instituto Universal.
Implanta igualmente estabelecimentos de ensino privado do outro lado de África, em Moçambique.
Em 1970 investe na ilha de Luanda. Ali implanta o restaurante “Farol Velho”. Tratou-se de um bom projecto, que, depois da saída do empresário, o governo transforma em escola de hotelaria e turismo.

África do Sul

E eis que vem o 25 Abril de 1974. E a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975.
Neste ano, abre, juntamente com o parceiro de negócios deste antigo território português, um colégio na África do Sul: o Colégio Verne, em Joanesburgo. O primeiro ojectivo é, precisamente, dar apoio a alunos vindos de Angola e de Moçambique. Além de externato é também internato. É o maior colégio de ensino de português na África do Sul.
Fica ligado ao negócio durante cerca de dois anos.
Horácio Roque mantém-se em Angola até Março de 1976. Nessa altura ruma a sul para o mais promissor país de África: a África do Sul.

Incertezas

Este ano 1976 surge para o empresário como um mar de incertezas.
Passa pela América do Sul, do Norte, Portugal e África do Sul. Em Portugal tem oportunidade de passar, de novo, na Madeira. Em Março de 1976 fica uma semana de férias na ilha, no hotel Sheraton (actual Pestana Madeira Carlton), com a mulher e a filha.
Horácio Roque não sabe onde vai fixar-se. Mas, no fim desse ano, depois de analisar e ponderar sobre as diversas alternativas, acaba por escolher a África do Sul. Vê ali uma mão-cheia de oportunidades.
Nessa altura, a filha mais velha, Teresa, tem quatro anos. A ex-mulher, Fátima, está ligada à universidade do país.
Não esconde que gosta muito da África do Sul e, de uma forma geral, de África.
Na África do Sul tem um pequeno escritório, com poucas pessoas. Mas, a partir do momento em que decide começar a vida de novo, depressa cria mais empresas.
Actua em actividades como os seguros, para a qual cria uma corretora — que conhece muito sucesso. Cria a empresa de sistemas audiovisuais, a Golden Office Machines, e outra de produtos de escritório, a Stereo Center.
Mantém relações comerciais com Portugal.
Apercebe-se da lacuna no mercado na comercialização de imóveis. Considera que falta uma ligação melhor entre os portugueses que vivem na África do Sul e o próprio país.
Deste modo cria um sistema de vendas de propriedades na África do Sul.
Cria igualmente em Lisboa a Mundiglobo. Uma imobiliária que ainda hoje existe.

Moçambique

Em 1977 inicia contactos com a nova nação Moçambique, com o regime comunista de Samora Machel.
Estabelece acordos com Moçambique para o fornecimento de produtos da África do Sul. É um negócio que considera bom e que dura alguns anos.
Horácio Roque exporta para Moçambique desde automóveis ao mais diversificado tipo de comida. A máquina produtiva está destruída pela guerra e o país muito carente.
Depois, Moçambique cria as chamadas lojas francas, que só vendem em moeda estrangeira, às quais concorre. Não ganha. Contudo, a empresa que as ganha, a Fnac, do português Alexandre Alves, é sua grande cliente de produtos da África do Sul.
As empresas de Horácio Roque fornecem igualmente embaixadas, ministérios e a própria presidência da República.
Na prática, diz que presta um bom serviço. E quando assim é, há sempre a possibilidade de conquistar os clientes.
No fundo, deixa claro que essa tem sido a sua maneira de estar e de trabalhar, mantendo alguma exigência na equipa que o acompanha sempre nos seus projectos.

O amigo Semião

Ainda nos últimos anos da década de 70 conhece na África do Sul Semião Mendes, distinto advogado da Madeira. Entusiasma-o a vir à ilha. Aceita. Fazem alguns projectos imobiliários em conjunto.
Nessa altura conhece a equipa que dirige a Caixa Económica do Funchal, dirigida por Henrique Abrantes.
Começa a ter contactos com a instituição.
Os negócios imobiliários na ilha correm bem.
Mais tarde compra um terreno nas Romeiras, no Funchal, junto com Joe Berardo e outros parceiros.
A ligação com a Madeira intensifica-se.
Em determinada altura surge a oportunidade de entrar na Madeirense de Tabacos juntamente com o madeirense Joe Berado.
Compram a empresa em 1985/86 ao Leacock, altura a partir da qual a desenvolvem.
Entretanto, a imobiliária corre bem em Portugal.
Os negócios também têm sucesso na África do Sul.

O Banif

Em 1986, a Caixa Económica do Funchal está com alguns problemas. É contactado por Henrique Abrantes no sentido de conseguir um conjunto de accionistas com o intuito de a transformar em banco.
O processo inicia-se em 1986.
As negociações não são fáceis. É ministro das Finanças em Portugal Miguel Cadilhe.
Da parte do Governo Regional, nomeadamente de Alberto João Jardim e de Miguel de Sousa, há uma vontade muito grande para que a Madeira tenha um banco.
No decorrer de 1987 são encontradas dificuldades. O poder central pretende que a instituição seja integrada num dos bancos existentes.
Deste lado há uma força muito grande para que tal não aconteça.
Eis então que, depois de um ano 1987 muito atribulado, consegue concretizar o projecto.
Em Janeiro de 1988 é feita a escritura do Banco Internacional do Funchal — Banif.
Tem um conjunto de accionistas. Posteriormente, alguns vendem as suas acções.
Começa assim o projecto Banif, como uma instituição pequena, com influência na Região Autónoma da Madeira e pouca no exterior, já que apenas tem um balcão em Lisboa e outro no Porto, bastante rudimentares e com algumas dificuldades de implantação.
É convidado para presidente do banco Raul Capela.
Daí para cá o banco cresce. Hoje é uma instituição respeitável no país e no exterior.
O Banif ganha dimensão e dá lugar a um grupo. Hoje tem consolidada a sua posição como um dos maiores grupos financeiros de dimensão média. É o maior banco de capitais integralmente portugueses.

O Savoy com Berardo

Em Janeiro de 1988 compra o hotel Savoy, no Funchal.
É igualmente neste ano que Horácio Roque compra o jornal Século de Joanesburgo, fundado, na altura, há cerca de 30 anos, pelo comendador António Braz, grande amigo de Horácio Roque.
Com a aquisição vem também uma gráfica, que imprime hoje em dia muitos jornais do país.
O jornal tem influência junto da comunidade portuguesa. O comendador Horácio Roque entende por bem modernizar com novos equipamentos. Hoje é uma das grandes empresas no sector na África do Sul.
É neste país que também investe no sector das agências de viagens, onde tem alguma predominância.
Lusoglobo e Sun & Travel são alguns dos nomes das suas agências de viagens naquele país. São especializadas nos mercados de importação e exportação.
As suas agências foram algumas das organizadoras do Fórum Mundial da Terra que decorreu recentemente em Joanesburgo. Uma operação que corre bem.
Neste país da África Austral constitui ainda uma cadeia de laboratórios de análises clínicas, junto com um grupo de médicos. Chega a ser a terceira no mercado sul-africano.
Mantém o negócio durante sete anos. Vende a um dos sócios que, mais tarde, torna a cadeia na maior do mercado.
Esta actividade dá-lhe uma satisfação especial na medida em que permite retomar o contacto com os médicos que tem quando desenvolve a actividade de propaganda médica em Moçambique.
Chega a investir na banca neste país.
Vila Ramos
Em 1990/91, compra o hotel Vila Ramos, na Madeira, juntamente com o comendador Joe Berardo.
Ainda nesse ano entra nos negócio das rações na Madeira.
Surge a Vitcaf e, mais tarde, a Rama, que é a única fábrica na Madeira de rações para animais.
Horácio Roque consolida a sua posição de liderança, que vem desde o início, no grupo Banif.
O banco passa a ser cotado na Bolsa de Valores de Lisboa em 1992.
É criada uma corretora de valores, uma empresa de “leasing”, uma de crédito, e por aí adiante.
São abertos balcões em todo o país.
Em 1996 é comprado o Banco Comercial dos Açores, que traz consigo a Companhia de Seguros Açoreana.
Conforme salienta o banqueiro, é uma oportunidade soberana para aplicar a experiência da Madeira.
E como primeiro banco na Região Autónoma dos Açores também tem muito sucesso.
Em relação à Açoreana, que também está na Madeira, é a sexta/sétima no país, num universo de 92 companhias seguradoras.
Mais tarde é comprada a companhia de seguros Oceânica. Há dois anos, O Trabalho vem complementar a oferta.

“Pedra” sobre Luanda

Sobre Luanda, onde começa a sua actividade, Horácio Roque diz claramente que, quando abandona a cidade, em 1976, prevê que o país irá entrar numa grande travessia no deserto. Não é propriamente a cidade onde quer viver e trabalhar.
Por isso mesmo, ao sair de Luanda, consegue pôr uma pedra em cima do passado. Hoje, à distância, considera que essa atitude é muito positiva no sentido em que lhe dá a liberdade para iniciar uma nova vida e carreira sem olhar para trás com ressentimentos.

Experiência ganha

Quando sai de Angola, diz a duas pessoas que, nos próximos 10 anos, não quer saber mais do país. Alguém diz que, ao agir assim, vai perder tudo o que tem. As palavras de Horácio Roque foram estas: «Quando cheguei a Angola, não tinha dinheiro nem experiência. Hoje, dinheiro não tenho muito [comparado com o estilo de vida que tem em Angola], mas tenho alguma experiência».
Volta a Angola em 1992, quando a ex-mulher tem alguns problemas políticos em Luanda. Passa lá o Natal.
Gosta do regresso. Faz o percurso da sua infância e juventude, onde mora, estuda e namora, e de adulto, pelos diversos locais onde tem negócios. Mas faz tudo isto sem nostalgia.
Vai à “Munique”, que encontra maltratada, ao “Farol Velho”, que vê em obras, ao Mossul, onde vê a sua casa de fim-de-semana ocupada por alguém do governo.

A “pedra” ainda lá está

As autoridades chegam a dizer para fazer uma relação dos bens no sentido de os devolver. Em resposta faz ver que o seu projecto já não passa por ali.
Gosta de passear pelo passado, mas não sente qualquer saudosismo. Não sente qualquer toque no coração.
A pedra ainda está bem colocada sobre a capital de Angola.
Mais tarde, pessoas importantes do regime de Angola chegam a contactar em Lisboa com Horácio Roque no sentido de o convencer a voltar. Oferecem todas as condições. O país precisa de si para a reconstrução.
A resposta é negativa. Diz que Angola tem o seu tempo.
Mesmo assim, hoje não afasta a hipótese de, eventualmente, voltar a investir em Angola, se se proporcionar um negócio nesse sentido. 

2002-10-25

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