Francisco Santos


As aulas, o governo e finanças


Francisco Santos. Os primeiros contactos com o trabalho acontecem em Moçambique. Foi professor e secretário de Educação. É director na Madeira do Grupo BCP.


O primeiro emprego chega com o ensino. Francisco Santos começa a ganhar dinheiro como professor de inglês e de língua portuguesa. Lecciona igualmente geografia e matemática, fruto de ter estudado economia.
Mas não são só estas disciplinas que ministra: é também professor de antropologia e sociologia.
Contudo, a maior parte da vida é professor de Educação Física. Tem o curso do ISEF — Instituto Superior de Educação Física, em Lisboa.

A ilha de Inhaca

Francisco Santos tem o primeiro contacto com o mundo laboral um pouco mais cedo. Está então em Moçambique, onde nasce, e tem a oportunidade de colaborar nas empresas que o pai tem, nomeadamente na área do turismo, com a unidade hoteleira na ilha de Inhaca, propriedade e explorada junto com os seus tios. Curiosamente, actualmente, a concessão de exploração do hotel é do Grupo Pestana.
É ali que Francisco Santos começa a perceber os valores e o peso de uma profissão. Tanto assim é que considera ter sido marcado pelo mundo da hotelaria e por algumas vertentes que o carcterizam na sua forma de ser e de estar na vida profissão, como sejam as relações públicas, a postura do serviço e a utilização sistemática das línguas, onde se sente muito à vontade.

A caminho de Lisboa

Depois de muitos anos passados em Moçambique, vem para Portugal. A primeira vez que vem à Madeira é em 1976.
Francisco Santos vai para Lisboa e estuda. Volta à ilha para fazer o estágio. É assim que, desde 1979/1980, desenvolve sempre a actividade docente.
Volta a deixar a Madeira em 1980 para um regresso em 1982. Para ser professor. Uma profissão que complementa com outras actividades. Diz que apenas o professorado não chega para satisfazer a sua vontade de fazer. Daí desenvolver outras actividades.

A televisão

É assim que, já na Madeira, paralelamente à sua profissão, desenvolve inúmeras experiências profissionais, que acumula com as demais que vai desenvolvendo. Uma delas leva-o a ser colaborador da RTP - Madeira, com uma periodicidade semanal, no programa “Movimento e Desporto”. Os seus honorários são pagos contra “recibo verde”.
Durante algum tempo chega a ser apresentador do programa, de 15 em 15 dias, alternando com André Escórcio e Sidónio Fernandes.
Juntamente com o então director da estação na Região, Armindo Abreu, chega a ponderar a entrada para os quadros da televisão madeirense. Faz formação nessa área mas as opções são outras.
Chega igualmente a ser colaborador no Diário de Notícias, durante muitos anos, onde escreve sobre várias temáticas.

O comércio

Por outro lado, juntamente com a mulher, entra no mundo do comércio. Tem um “franchising” de roupas de uma marca portuguesa: a Cenoura. Entretanto, há já algum tempo que deixou o negócio.
Depois, juntamente com colegas, cria uma empresa de prestação de serviços na área lúdico-desportiva. Chama-se Ludisport e tem como objectivo o apoio a um conjunto de actividades. Chegam mesmo, através de alguns colaboradores contratados, a prestar serviços em navios de cruzeiros para animação turístico-desportiva a bordo.
O próprio Francisco Santos chega a ser animador, durante algum tempo, com estas características, no grupo Dorisol, nos hotéis Buganvília, Mimosa e Estrelícia, na altura em que António Trindade é director das unidades.

Projecto da clínica

Em meados dos anos 80, quando é lançado o projecto pioneiro na Região da Clínica da Sé, na altura chamado Centro Médico da Sé, Francisco Santos, e a mulher, tem a responsabilidade de organizar e gerir todo o processo inerente ao ginásio que ali é implantado. São os “concessionários” da área da ginástica e manutenção e são como que sócios virtuais do empreendimento.
Nessa altura, o seu dia é preenchido da seguinte forma: às 6.45 horas já está no Centro Médico da Sé a dar aulas de ginástica. Depois vai à escola e dá aulas e, mais tarde, regressa ao centro médico, onde fica entre as 19 e, normalmente, as 21.45 horas.
Considera ter sido uma fase dura, mas que o satisfaz por ter contribuído para o lançamento de um projecto.

Cursos de administração

Ainda na década de 80 faz dois cursos numa instituição holandesa de administração pública, chamada Bloso, ligada à formação de quadros. Um deles é sobre administração e gestão da formação de técnicos.
Em 1981/82, o prof. Fernando Ferreira, então director regional dos Desportos na Região, convida Francisco Santos a sair do ensino formal na escola e passar a ser responsável naquela instituição pelo departamento de actividades e formação. Aí chega a ser chefe de divisão e director de serviços. Tem funções de técnico superior, apesar de ali estar apenas destacado.
Começa a ganhar algum gosto pelo trabalho na administração pública em termos de gestão e coordenação de projectos.

A Universidade

Em 1988 é indigitado para director regional dos Desportos. Contudo, acaba por não se concretizar o convite por razões de ordem pessoal e familiar. Nessa altura regressa ao ensino.
É desafiado pelo prof. Sena Lino a colaborar no projecto de desenvolvimento da Escola Superior de Educação na Madeira.
Para trás fica o ensino secundário e a Direcção Regional de Desportos.
Passa a ser professor na nova escola, onde faz parte do núcleo que quase consubstancia a transferência de Escola Superior de Educação para a Universidade da Madeira e a criação de um curso de Educação Física.
Faz parte da comissão de coordenação do curso de Educação Física e Desporto da Universidade da Madeira, que integra o prof. Sena Lino, o prof. Fernando Ferreira, o prof. João Mateus e o prof. Hélder Lopes.
Os cinco têm a responsabilidade de leccionação como também da gestão e coordenação do curso.
Na universidade é responsável por áreas disciplinares inovadoras em termos de formação do curso de Educação Física. Como tem experiência de antropologia, congrega-a com a história numa única disciplina chamada História da Cultura Lúdico-Desportiva. Deixa claro que não a pensa sozinho já que conta com o apoio do prof. Melo Barreiros, um dos grandes pensadores da educação física em Portugal.
Além disso, é responsável, em colaboração com outros colegas, pela disciplina de Sistemática das Actividades Desportivas e pelo basquetebol.

O “Ernâni Lopes”

Posteriormente, orienta a disciplina de projectos de desenvolvimento desportivo, que pode ser visto como ponto de encontro entre o desporto e a gestão. Gestão que desde cedo mantém um contacto estreito.
Já na Escola “da Levada” é vice-presidente do conselho directivo e presidente do conselho administrativo.
Na altura, é ministro das Finanças em Portugal Ernâni Lopes. E, como faz uma gestão criteriosa e apertada nos dinheiros da escola, chamam a Francisco Santos o “Ernâni Lopes da escola”.

A história do desporto

No meio de toda esta actividade, ainda tem tempo para escrever o livro “A história do desporto na Madeira” que retrata a actividade neste domínio desde o século XV até ao XX.
Francisco Santos tem tempo igualmente para fazer um mestrado em ciência política económica da União Europeia, numa universidade inglesa.
Em 1992 apresenta um projecto de doutoramento numa área ligada à administração e gestão desportiva, cuja tese tem como base e fundamento a demonstração do que é normalmente demonstrado em sentido inverso. Ou seja, «tradicionalmente, quando há desenvolvimento ou crescimento económico, entende-se que existe incremento desportivo».
Ora, o teor da tese de Francisco Santos é que o desenvolvimento desportivo contribui para o desenvolvimento socioeconómico da sociedade.

Secretário da Educação

E, quando tudo se encaminha para que se concretize, é convidado pelo presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, para ser secretário regional da Educação. Assume a pasta em Novembro de 1992, para a deixar dois mandatos mais tarde (oito anos).
Em finais de 1999/princípios de 2000, recebe um novo desafio: ponderar a hipótese de fazer uma experiência num sector que nunca pensa vir a trabalhar, o financeiro.
O eng. Jardim Gonçalves convida-o para trabalhar no seu grupo. A primeira coisa que diz ao patrão do Grupo BCP é que não percebe nada de banca nem de seguros.

O Grupo BCP

Não demora a ouvir a resposta de incentivo de Jardim Gonçalves que hoje diz perceber muito bem. O banqueiro diz-lhe que aquilo que interessa é que existam pessoas com uma visão estratégica global do mundo e que saibam planear e organizar um conjunto de actividades e, simultaneamente, tenham capacidade e competência, se estudarem, para aprender o que fazer.
As palavras caem bem e aceita o desafio.
Entra como director regional do Grupo na Região em Janeiro de 2001. Tem responsabilidade na área da banca e dos seguros, que o obriga a colocar em prática tudo aquilo que caracteriza a sua carreira: relações públicas, porque tem de gerir a relação institucional de todo o Grupo BCP na Madeira; professor, na lógica da investigação, porque cada caso é um caso e, para tomar decisões, precisa de estar ciente de que toma a melhor; a gestão e administração de todos os componentes e dos recursos na Madeira e da sua formação. No fundo traduz-se numa nova actividade que alimenta a sua vontade de conhecer sistemática, fruto de um espírito inquieto.

“Hobby”: estudar

Por isso mesmo, não é de admirar que o seu grande “hobby” seja estudar. Estudar seja o que for, já que a sua vontade de saber é do tamanho dos oceanos. E como consegue concretizar todo este percurso? Com alguma disciplina e muito apoio da família. Reconhece que não é fácil ter alguém em casa sempre pronto para aceitar novos desafios. Sobre este seu espírito sedento de novos desafios, Francisco Santos considera ter uma importância relevante porque o faz sentir sempre vivo.
Aliás, diz mesmo que, hoje em dia, seja em que profissão for, é preciso estar disponível para investigar e saber sempre mais. Não há lugar para comodismos nem para conhecimentos perpétuos.
No seu caso concreto, a ida para a banca obrigou-o ao aprofundar de conhecimentos para se inteirar de realidades como a de estruturar e desenvolver projectos de concessão de crédito para um conjunto de pessoas que pretendem desenvolver projectos na área da economia.
Isso obriga a muita leitura e apoio de pessoas. «Mas isso é desafiante e é o que me atrai».
E será que o percurso de Francisco Santos termina no actual cargo? Para responder, recorre ao seu percurso. Um percurso que fala por si e que lhe diz que não acaba por ali.

Leituras

No domínio da leitura, assume-se com um consumidor nato de jornais.
Todos os dias lê os dois principais jornais madeirenses e o Diário de Notícias ou o Público, o Diário Económico e o Financial Times. À excepção dos jornais madeirenses, que normalmente lê à hora do almoço — que defende que deve ser feita por todos —, os outros são lidos com recurso à Internet.
Ao fim-de-semana lê o Semanário Económico e o Expresso.
Não deixa de ler a Exame, a Executive Digest, Economia Pura e a Análise Social.
Assume-se um devorador de livros.
Presentemente, anda a ler sobre os segredos do mundo da Bolsa para tentar perceber o que os analistas não conseguem explicar com eficácia.
Além destes livros mais técnicos, tem dois sobre a mesa-de-cabeceira. Opta por um ou outro consoante o estado de espírito do dia. Um chama-se “História do crédito ao consumo” e o outro “As 48 leis do poder”.
A nível de “hobbies” diz que existe um que nunca mais conseguiu fazer com a intensidade que desejaria: o golfe. Trata-se de um desporto que leva muito tempo. E entende que deve dispender algum do que lhe sobra para apoiar, por um lado, a filha, que estuda em Lisboa, e, por outro, a mulher, que está sozinha na Madeira.
Agora, o que não deixa de ver são exposições.
No domínio do relacionamento com as novas tecnologias, entende-se muito bem com o computador, ao ponto de não conseguir fazer quase nada sem o seu apoio. Considera-o um instrumento de trabalho que, igualmente, é útil em momentos de lazer.
Presentemente tem cerca de 250 pessoas a trabalhar sob a sua responsabilidade, menos 50 do que quando assumiu funções.
Quanto ao tempo de trabalho diário, podemos dizer que tem uma carga horária muito preenchida no sentido de satisfazer todas as necessidades do dia-a-dia. Um dia que é complementado em casa com a vontade insaciável de conhecer e aprofundar conhecimentos. 

2002-08-09

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