Danilo Camacho


A arte de fazer leilões

A figura de Danilo Camacho é das tais que se confundem com a profissão. A sua ligação constante e antiga aos leilões faz do empresário madeirense uma pessoa emblemática no sector que abraça desde jovem.

por: Paulo Camacho


Começa a trabalhar muito novo na agência de leilões Cunha, na Rua dos Netos, onde hoje está o Hotel Orquídea.
De início faz as voltas da casa pela cidade do Funchal.
Posteriormente, com a saída de um empregado, passa para o escritório.
Um dia, dá-se um acontecimento que muda a sua vida.
Está marcado um leilão para um certo dia. Por qualquer razão, o pregoeiro não aparece no leilão anunciado. A casa está cheia. A assistência está pronta para o despique na compra de peças.
O sr. Cunha fala com Danilo Camacho. Diz-lhe que tem de desenrascar. Do outro lado ouve que não tem “lata”. Mas surgem palavras de incentivo. O empresário elogia o seu desempenho ao longo dos anos e o conhecimento que vem adquirindo ao longo desse tempo de todos os passos necessários a dar.
Danilo Camacho enche-se de coragem. Faz a vontade, e o leilão desse dia.
O resultado não podia ser melhor. O patrão ganha um pregoeiro com grande potencial e despede o anterior. Danilo Camacho passa a ser pregoeiro nos leilões Cunha.
Por ali fica cerca de 18 anos.

Os Leilões Chagas

Depois, muda para a agência Chagas, uma das mais concorridas leiloeiras da cidade.
Compra o negócio em 1963 à viúva do sr. Chagas, entretanto falecido. A actividade floresce. O espaço começa a ser pequeno para a dimensão que a empresa alcança. É uma das maiores empresas da Madeira, como atestam os troféus e quadros no escritório. Além disso, o edifício, que entretanto adquire, degrada-se.
Danilo Camacho decide dar um passo arrojado, numa altura em que o edifício não aguenta mais.
Decide deitar abaixo o prédio e reerguê-lo para poder corresponder aos seus desejos e dar a dimensão pretendida aos Leilões Chagas, na Rua dos Ferreiros.

Novo edifício

Chega a candidatar o projecto a subsídios. Mas as respostas são negativas, depois de algumas indicações que tem potencial para ser apoiado. Não compreende como uma empresa comercial não pode ser ajudada como as demais. Não desanima.
Já tem a documentação feita e muitas despesas efectuadas com o projecto.
Faz um “golpe de rins” e vai em frente. Recorre à banca e a capitais próprios, que amealha ao longo dos anos.

Conjuntura difícil

Para ajudar, os bons tempos de vendas a leilões lá foram. Tempos em que, num leilão, esvaziava todo o recheio.
Há já algum tempo que a conjuntura não é muito favorável para as compras de peças em leilão. Refere que deve estar aí a uns 10%, ou menos, do movimento anterior.
Além disso, diz que se vendem peças a imitar boas madeiras, muitas vezes por valores exorbitantes. São peças que a partir do momento da compra perdem fortemente o valor comercial, o que diz não acontecer com os móveis de qualidade que, no mínimo, mantêm o preço da compra.
Resultado: Danilo Camacho tem a casa cheia de produtos que não consegue escoar. E, além disso, tem de recusar muitas mais porque, mesmo com o grande espaço criado nos quatro andares do edifício, não há lugar para mais.

A qualidade

Curiosamente, Danilo Camacho refere que, se, nos tempos áureos, tivesse móveis de qualidade como tem hoje no salão principal, não tinha lugar para tantas pessoas.
O empresário considera que as pessoas não perderam o hábito de ir ao leilão. Entende sim que a situação económica geral negativa é que é culpada. Não há compradores.
Não obstante, há clientes que vêm do continente. Há mesmo um que pede para que, quando houver um leilão bom, seja avisado para se deslocar à Madeira para comprar.
Danilo Camacho admite que em quase todos os leilões há disputas em determinados produtos, com despiques que levam, por vezes, que cheguem a valores que não se coadunam com o seu real valor. Mas também há o contrário. Peças que deveriam valer mais e acabam por não corresponder na procura.

O braço direito

Presentemente, trabalha com o filho, que também é sócio da empresa. Hoje em dia substitui o pai em tudo. Diz mesmo que, com certeza, faz um leilão melhor do que o seu.
E ainda bem que assim é porque Danilo Camacho refere que tem um problema de saúde que condiciona as maratonas linguísticas que um leilão obriga, com grande esforço vocal de princípio ao fim.
Nos tempos áureos, chega a fazer leilões de seguida, desde as 10 às 23 horas, sem tomar um copo de água. Hoje lamenta que as maratonas tenham contribuído para ter problemas de garganta.

Viagens de aprendizagem

Tal como noutras alturas, quando tem tempo, vai a casa das pessoas fazer avaliações de móveis e outras peças. Mas não faz tanto quanto gostaria.
Presentemente, tem sete pessoas a trabalhar na agência, contando consigo e com o filho.
Durante a sua vida, tem viajado pelo Mundo, sobretudo em viagens de estudo para conhecer cada vez mais o sector onde trabalha há muitos anos.
Inclusivamente, decalcou um programa informático de uma leiloeira de Londres que, depois de adaptações, coloca em prática na Agência Chagas. Trata-se de um programa que nem existia em Lisboa.
Para conhecer os mecanismos compra peças na referida empresa inglesa.

O rigor de outros países

E é com essas viagens que se apercebe ainda do rigor que países como a Inglaterra têm em relação às licitações do leilão. Ali, quem arremata um produto tem de o comprar.
Contudo, tal não acontece em Portugal. Danilo Camacho diz que, por vezes, o cliente compra mas não paga as peças que entretanto já pagaram ao vendedor.
Sem associação que defenda os seus interesses, os leiloeiros não têm força para fazer prevalecer direitos que consideram prementes, como seja a obrigatoriedade de cumprir os compromissos assumidos num lanço de leilão.
Nos tempos livres, Danilo Camacho diz que não tem “hobbie” em especial. Dedica sim todo o tempo possível ao mundo que abraça muito jovem e conhece como a palma da mão. O mundo da venda por lanços que só o sino de mão do pregoeiro anuncia que o último sobrepôs os anteriores na compra da peça desejada.


BI
Nome: Danilo Ivens Martins Teixeira Camacho
Data de Nascimento: 1929-9-20
Naturalidade: Santa Maria Maior,
         Funchal
Estado Civil: Casado
Filhos: 1 filho e 1 filha (e 4 netos)

2003-10-03

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