António Trindade


O estratega chamado António

António Trindade nasce num ambiente de hotelaria. O pai, Aníbal Trindade, além de uma figura marcante do turismo madeirense, constitui uma referência para o hoteleiro. Era um visionário com uma cultura fora do habitual. Sabia ler os ventos da Europa e antecipava as mudanças. António Trindade herda esse dom do pai. É um estratega por excelência, fruto da leitura constante que faz do movimento mundial.

por: Paulo Camacho


Os pais de António Trindade conhecem-se num baile na Bélgica, onde o pai estuda e ganha o primeiro prémio como melhor dançarino e a mãe pelo oposto. Fazem a dança final. A química dita as regras e atrai-os. Por isso é filho de pai madeirense e mãe belga.
Desde os 9/10 anos, António Trindade passa a lidar com a pequena unidade hoteleira comprada pelos pais: a Quinta Favila, que tem o condão de ser, na altura, uma referência da pequena hotelaria de qualidade na Região.

A avó Lamas

É um hotel com pouco mais de 30 quartos, com um jardim de chá e o primeiro mini golfe na Madeira, que já não existe, onde António Trindade tem o centro de convívio da sua juventude. É o ponto de encontro das tardes e noites.
Na sua juventude viaja por esse mundo fora. Tem em Paris a sua referência. Convive com Maria Lamas, a quem, carinhosamente, chama de avó, e com outras figuras de relevo da então chamada “oposição”, com destaque para Mário Soares.
Mais tarde, assiste à criação de diversas unidades hoteleiras que o pai ergue juntamente com a sua irmã e o cunhado, como o Lido Sol, Buganvília, Estrelícia, Mimosa e o Florasol.
António Trindade está no início da formação académica, em Lisboa. Nas férias toca música nos hotéis para garantir o seu “pocket money”.
Termina a licenciatura em Direito e começa a estagiar advocacia. Era um curso assumido com uma maior polivalência do que actualmente.
Hoje, se pudesse voltar atrás, estaria indeciso entre um curso de gestão e um de arquitectura.
Em 1973 os directores do grupo Dorisol saem para abrir outros hotéis. O pai e o cunhado pedem que segure a direcção hoteleira do grupo por seis meses, enquanto não encontram substitutos para as vagas.

O convite que muda

Os seis meses mudam a sua vida. Deixa a carreira de advogado na gaveta. Agarra de alma e coração a hotelaria e o turismo.
Fica no grupo Dorisol até 1988, altura em que se junta com David Caldeira para um novo projecto hoteleiro juntamente com a empresa regional Ocean Islands, proprietária de vários terrenos, entre os quais se econtra aquele onde se ergue o Suite Hotel Eden Mar.
O tempo passa. Novos projectos surgem na área imobiliária. A segunda experiência segue-se à bem sucedida primeira com um novo hotel, de cinco estrelas. Fica a centenas de metros. Chama-se Cliff Bay.
Passados cinco anos António Trindade e os seus sócios empreendem nova aposta com a construção do hotel Porto Santa Maria, na zona velha da cidade do Funchal.
O grupo cresce. O número de camas também. É decidido uma parceria estratégica com um dos maiores operadores turísticos do mundo: Thomas Cook, que entra no capital do grupo Porto Bay. «Dá-nos outra perspectiva de crescimento do grupo em relação a projectos locais e no exterior», sublinha o empresário.

Comércio

Paralelamente à actividade hoteleira procede ao que diz sem experiências de empresas de representação na área comercial nas Galerias São Lourenço e Arcadas de São Francisco. Empreendimentos feitos pelo grupo.
Além disso, faz incursões pela política. É vereador à Camara Municipal do Funchal, durante três mandatos. Concorre como cabeça de lista em 1982 e fica a umas centenas de votos da maioria. É deputado pelo Partido Socialista várias vezes. Em duas delas, à Assembleia Legislativa Regional da Madeira e igualmente por duas vezes à Assembleia da República. Sempre por períodos relativamente curtos porque a «compatibilização da vida política e profissional é difícil». A última experiência foi a mais longa. Está um ano como deputado da Madeira no parlamento nacional. Um ano em que teve de continuar a dirigir os hotéis.
Integra a estrutura directiva da Associação Comercial e Industrial do Funchal-Câmara de Comércio e Indústria da Madeira onde desempenha as funções de membro e de presidente da “mesa de hotelaria” e posteriormente de presidente do sector de Turismo.

Visão diferente
Estas várias vivências «permitiram-me ter uma outra visão do mundo empresarial. Quando conseguimos partilhar esta experiência com as práticas associativa e política, ganhamos uma visão muito mais alargada e abrangente das opções que temos de tomar».
Deste modo, António Trindade diz que, cada vez que tem de tomar uma decisão, não se baseia apenas numa única perspectiva. «Uma visão que englobe a complementaridade entre os universos macro e micro-económicos e sociais, determina necessariamente uma maior sustentabilidade nas decisões».
Ainda no campo político, António Trindade tem um papel preponderante na elaboração do programa de governo do Partido Socialista, que esteve durante seis anos a governar Portugal. É da sua responsabilidade o texto sobre a política do turismo em 1995 apresentado nos estados-gerais, que serviu de base ao programa de governo.
Para o efeito, trabalha com um grupo de economistas «particularmente enriquecedor», onde surge como coordenador da área económica Pina Moura, e tem como colegas, entre outros, João Cravinho e Augusto Mateus.

Governo à vista

Na sequência deste contributo, é convidado a integrar o primeiro governo do PS. Está reservada a António Trindade a pasta da Secretaria de Estado do Turismo ou a presidência do ICEP.
Está «francamente» indeciso em 1995.
Mas tem a convicção que não pode compatibilizar as ofertas com a vida empresarial. «A opção iria obrigar-me a desenraizar das estruturas empresariais». Além do mais, sublinha que o Grupo Porto Bay é constituído por várias participações minoritárias, assentes numa estrutura de vários profissionais que o gerem. «E tinha a perfeita consciência dos compromissos que tinha assumido em relação aos outros accionistas».
Assim tem de tomar uma opção.

Jornais e voos

Primeiro cumprir as “promessas” que tinha assumido politicamente como candidato a deputado e a seguir honrar os compromissos empresariais.
Considera, por isso, ter sido muito gratificante o poder defender no parlamento nacional princípios muito caros aos madeirenses e expressos em projectos como o da equiparação dos preços dos livros, revistas e jornais e da garantia da cobertura na Região Autónoma de um canal de televisão nacional, da criação de uma taxa intermédia do IVA para o sector do turismo, assim como colaborar com os Governos da República e Regional na reformulação dos termos de concurso do transporte aéreo de passageiros para esta Região, cujos resultados positivos se fizeram sentir de imediato.
A juntar a esta sua actividade, é igualmente cônsul da Holanda na Madeira, função que diz não tirar muito tempo.

Ler o mundo

Não é defensor de uma gestão centralizada. A começar pela filosofia e estrutura do grupo onde está inserido. «Quando assumo que se pode gerir muito bem a partir de minorias, tenho de admitir que a gestão tem de assentar numa participação descentralizada».
Em relação ao tempo de trabalho, António Trindade não é fundamentalista de estar muito tempo na empresa. «Não meço a qualidade de gestão pelo tempo dedicado, mas, geralmente, não trabalho menos de 10 horas por dia. Asseguro sim uma dedicação grande ao trabalho».
A actualização de António Trindade passa sobretudo por ler e estar sempre bem informado. Tem várias referências da imprensa internacional e turística, das quais faz a actualização diária.
Depois vem o gosto de viajar. Todos os anos escolhe para as férias pessoais e viagens de trabalho um ou dois destinos que considera inovadores. Os próprios projectos hoteleiros a que está ligado têm muito das suas viagens.
António Trindade procura ter sempre a maior informação dos mercados, o que só consegue viajando através dos mesmos, onde fala com os operadores, entidades oficiais, gente da aviação, representantes de Portugal no estrangeiro e por aí adiante. «É isto que nos dá a capacidade de assimilar a maior informação possível e construir uma sustentação nas teses de turismo que defendemos em termos de grupo, de cidadão, de empresário e de contribuinte para a causa turística regional e nacional».

Equilíbrio

Esta aprendizagem contínua conta ainda com algo de que António Trindade não prescinde: o contacto directo semanal com os clientes através do cocktail com os hóspedes. São eles que dão informações sobre as suas vivências; o que procuram nos hotéis e nos destinos que visitam e, sobretudo, as críticas que possam eventualmente fazer ao hotel ou hotéis a que está ligado.
Diz que, felizmente, ao contrário de outros tempos em que havia um desfasamento enorme entre a apreciação do hotel e do destino, tem sido forte e positivamente atenuada por uma melhoria progressiva da apreciação dos clientes ao destino Madeira.
Continuam a haver críticas pelas construções, mas os clientes reconhecem que as infra-estruturas que vão progressivamente sustentando o aumento têm sido visíveis, nomeadamente ao nível das acessibilidades internas e do tratamento urbano.

Internet

É um utilizador frequente da Internet. Inclusivamente tira grande partido do correio electrónico. Em todo o grupo, os quadros comunicam através de e-mail. Tudo se passa hoje tão rapidamente que um empresário não se pode dar ao luxo de não ter a garantia do manuseamento de um instrumento como a Internet. Quer do ponto de vista informativo quer ainda na capacidade de tornar essa informação mais pró-activa perante os acontecimentos.
É igualmente um consumidor de televisão, sobretudo nas áreas informativas. Mas também na componente lú-dica.

Sweet Lovers

Tem na música um dos seus grandes “hobbies”. Desenvolve desde há muito uma grande paixão pela música na perspectiva passiva de ouvinte e também activa.
António Trindade integra o conjunto musical “Sweet Lovers”. Um gosto que vem de longe, da altura em que também tinha o seu conjunto musical: os Dancer’s.
É pianista, mas também toca viola baixo no conjunto onde também tocam o dr. Manuel Brito, o dr. José Carlos Martins, a eng. Inês Costa Neves, o eng. Luís Jardim, o dr. Jorge Martins e o dr. Rui Alves. Todos, nas suas juventudes, tiveram os seus grupos e entenderam que se deviam juntar para tocar músicas dos Beatles, dos Rolling Stones, entre outros, mais música portuguesa.
Não actuam em público há um ano. Já tocaram no Carnaval, no Carlton, nas Vespas, nos Hotéis Porto Bay, no Dó Fá Sol, garantindo sempre casa cheia. Assistem as duas gerações: os pais e os filhos.
Para este ano estão programados alguns concertos. Um no Verão e outro no Inverno. Os ensaios são quase semanais. 

2002-04-05 
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