Alexandre Rodrigues

O empresário maratona

Alexandre Rodrigues. Estabelece-se muito cedo. Com 20 anos. Em 1932. Desde então desenvolve uma actividade comercial intensa, à qual alia a grande paixão pelo desporto, concretamente o futebol. Hoje, continua no seu negócio, na Rua de Santa Maria. Nem quer ouvir falar de reforma.

por: Paulo Camacho


Alexandre Rodrigues cresce e estuda como as crianças do seu tempo. Desde cedo convive com o futebol e com o mar, a dois passos da sua casa na Rua de Santa Maria, no Funchal.
Aos 10 anos, perde o pai. Pai que, durante algum tempo, é arrais numa lancha que faz serviço para o hotel Reid’s. E, com o dinheiro que ganha, dá uma verba todas as semanas à mulher. Verba essa que amealha e, um dia, dá para comprar uma lancha. Por desejo e decisão da mulher. Seguiram-se outros. Até chegar a uma frota de cinco lanchas para fazerem as ligações aos navios que fundeiam na baía, no sentido de efectuar o transporte dos passageiros para terra e vice-versa. É o tempo que sucede ao fim da guerra e de grande incremento no movimento de navios. São seis e sete navios quase todos os dias no porto.
O negócio dos barcos dá uma média de 600 escudos por mês. Uma verba que aguenta a família quando morre o pai, em 1922.

O negócio próprio

Alexandre Rodrigues estabelece-se em 1932. Com 20 anos. O primeiro negócio são os tecidos. Muitas pessoas ficam admiradas como consegue vender tantos na Rua de Santa Maria, onde nasce, se estabelece, e onde se mantém, e casa.
Chega a ser o segundo comprador e vendedor de tecidos da Madeira. À frente está Manuel Pinto da Silva.
Consegue comprar a mercadoria com as mesmas condições do concorrente: pagamento a 30 dias, com 5% de desconto.
Por seu turno, embora o seu negócio seja a pronto, há clientes que demoram a pagar. Alguns demoram um ano.
Alexandre Rodrigues recorda que o concorrente controla as suas encomendas indo ao despachante saber quantos rolos de tecido recebe Alexandre Rodrigues.

A venda a bordo, em Lisboa

Depois, envereda também pelos vinhos.
A entrada nos vinhos deve-se ao irmão mais velho, José Olavo, que tem um significado muito grande para si. Diz mesmo que não deve de haver no mundo um irmão como o seu.
Até que um dia, chega a Lisboa uma esquadra americana.
Vai ter com o irmão mais velho, que deixa a Madeira para casar. O tal amigo, que desenvolve negócios com os navios que aportam a capital.
Um amigo seu, negociante de bordados na Madeira, disponibiliza uma colecção destes produtos típicos da Região.
Chegam ao porto de Lisboa e entram para bordo.
Como não domina bem o inglês pede ao irmão para dizer aos americanos que é industrial de bordados — uma habilidade, reconhece — e que tem uma colecção bem ao gosto dos norte-americanos. De bordo aceitam a sugestão. Alexandre Rodrigues deixa a mercadoria a bordo para apreciar, não sem que antes coma um faustoso pequeno-almoço no navio militar.
À tarde regressa ao navio. Escolheram o que queriam e pagam de imediato. Tem margens de lucro de 100%.

Persistência

Não satisfeito, no dia seguinte levanta-se cedo. Pede ao irmão novamente para ir a bordo. Apesar de terem dito que não querem mais bordados, Alexandre Rodrigues insiste.
Novo pequeno-almoço.
Perguntam o que quer novamente. O empresário madeirense diz que, com a pressa de escolherem  na véspera, não escolheram as peças mais bonitas.
Deixa-as novamente. À tarde vai buscar o que resta. É o produto da venda.
Mas ainda continua insatisfeito. Quer insistir. Uma imagem de marca que o acompanha até hoje: a persistência.
Assim, no dia seguinte está, outra vez, às seis da manhã com o irmão para ir novamente a bordo. No navio americano surge com outra argumentação. Diz que fica mal um industrial de bordados ter tanta mercadoria boa e voltar para casa sem conseguir vendê-la na totalidade. Ficam sensibilizados.
À tarde, quando regressa ao navio, dizem que ficam com tudo. Mas só com um desconto de 30%. Faz teatro. E contas de cabeça. Diz que não. Só baixa 25%.  E com uma condição: dar uma recomendação para um porto marroquino onde aporta navios americanos.
Consegue convencer e fazer o negócio.

Marrocos à vista

Regressa à Madeira e procura mais trabalhos de bordados para vendê-los em Marrocos na base naval.
Estamos em 1950.
Vai com o irmão para o Norte de África. Tem de esperar que o navio chegue. Durante três/quatro dias, devido a mau tempo que apanha.
Dorme numa casa a cheirar mal. Adoece.
Até que o barco chega.
Primeiro contratempo. Não deixam levar as caixas de bordados, no valor de 300 contos, que estão no porto.
Mas o irmão fala mais alto e consegue convencê-los.
Segundo contratempo. A bordo tem dificuldade em vender. Não querem comprar. Diz então para o comandante escolher o quiser como lembrança para a esposa. É uma oferta.
Doente, a desejar regressar rapidamente à Madeira, como não querem comprar, deixa toda a mercadoria a bordo. Para o que desse e viesse.
Um mês depois recebe o cheque no Funchal. E mais uma encomenda.

Intercâmbio com o Brasil

Cerca de 40 anos depois de se estabelecer entra no negócio dos bordados. Tudo porque os vendedores que levam as suas mercadorias pelas portas no campo desaparecem e porque também começam a surgir mais lojas de tecido na Madeira.
Um dia conhece um empresário brasileiro no Flamingo de passagem pela Madeira para comprar bordados com o intuito de vendê-los no Brasil. Diz-lhe de pronto que não tem dinheiro, mas é um homem sério. Alexandre Rodrigues fica sensibilizado.
No dia seguinte aparece na loja, como combinado. Surgem os negócios e acaba por aguentar a casa durante anos com as encomendas.
Entra ainda no negócios das frutas. Mas considera-os cansativos.  Deixa-os.
Hoje representa diversos produtos como whisky, queijos, fiambres e vinho.
Nos anos 70 chega a ser convidado para ficar como agente da Coca-Cola na Madeira.
A dada altura do seu percurso também lhe abrem a porta à companhia de Seguros Impérios, entre muitas outras oportunidades. Mas não quer tanto.
Actualmente continua a ir ao negócio todos os dias.

O “camisola amarela”

Paralelamente à actividade profissional, Alexandre Rodrigues é um desportista nato. Começa a jogar futebol no seu clube de sempre: o Marítimo. Em 1928. É ponta esquerdo. Pendura as chuteiras em 1933.
É o homem forte do clube durante muito tempo. Chega a ser jogador, treinador, seleccionador, dirigente e, como diz, capitalista, pelo apoio que tem de fazer em determinada altura no suporte às equipas que vêm jogar à Madeira.
Alexandre Rodrigues é uma pessoa bem relacionada na Madeira. Tem grande popularidade na ilha. Hoje ainda mais. Em tom de brincadeira, diz um dia ao presidente do Governo Regional (que reconhece que a grande obra da Madeira foi feita por Alberto João Jardim e que nem daqui a 100 anos surge outra pessoa igual) que hoje leva a “camisola amarela”, mas, durante muito tempo, tem o condão de a usar na Madeira, pelo que faz. E pela popularidade que dispõe na sociedade.

O sr. Comendador

Nunca chega a ser presidente do clube, tal como evidencia não o ter sido Salazar, o que não invalida que mande.
Chega a ser convidado para seleccionador nacional.
Recebe muita gente em casa. Amigos como Otto Glória, Cândido Oliveira...
Há dois anos recebe a comenda portugesa do desporto.
Entre os muitos reconhecimentos é sócio honorário da Portuguesa de Desportos, do Brasil.
Continua a ser um grande apreciador do futebol. Hoje tem como “hobbys” conversar no café com amigos e continuar a ver o desporto rei nos campos de futebol ou na televisão.
Em termos de reforma, não pensa fazê-lo.
Uma nota final.
Este trabalho ficaria imcompleto se não agradecesse publicamente o apoio que recebemos dos netos Olavo Silva e João Alexandre Silva para que se podesse viabilizar.


BI

Nome: Alexandre Isidoro Rodrigues
Data de Nascimento: 4-3-1920
Naturalidade: Santa Maria Maior, Funchal, Madeira
Estado Civil: Casado
Filhos: 2

2003-12-25

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